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Curso próprio · Metodologia científica · Capítulo 1

As formas de conhecimento

«Todos os homens, por natureza, desejam conhecer.» Aristóteles, Metafísica, I, 980a

Objetivo do capítulo. Analisar diferentes formas de conhecimento — senso comum, mito, religião, arte, filosofia, técnica e ciência —, identificando seus critérios de validação, suas finalidades e suas relações históricas. Ao final, o estudante deverá ser capaz de caracterizar cada forma sem hierarquizá-las de modo ingênuo e de reconhecer o que é específico do conhecimento científico.

Capítulo 1 de Metodologia e Prática em Pesquisa: um livro-texto · material didático da disciplina NC005

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§ 1.1

Conhecer: um problema antes de ser uma resposta

Antes de perguntar o que é ciência, é preciso perguntar o que é conhecer. A pergunta parece elementar, mas é uma das mais antigas e resistentes da filosofia. Quando digo que sei que a água ferve a 100 °C ao nível do mar, que sei andar de bicicleta, que sei que meu amigo está triste, que sei que a Segunda Guerra terminou em 1945 e que sei que matar inocentes é errado, uso o mesmo verbo para operações cognitivas muito diversas.

A tradição filosófica distingue ao menos três sentidos do verbo saber. O saber proposicional (saber que) refere-se a enunciados que podem ser verdadeiros ou falsos: sei que o Brasil tem 26 estados. O saber procedimental (saber como) refere-se a habilidades que nem sempre podem ser inteiramente verbalizadas: sei como nadar, ainda que não consiga descrever todos os movimentos. E o conhecimento por familiaridade (saber de) refere-se ao contato direto com pessoas, lugares ou experiências: conheço minha cidade, conheço o sabor do café.

A ciência trabalha centralmente com o primeiro tipo, mas depende crucialmente dos outros dois. Um laboratório é um lugar onde se produzem proposições, sim, mas também um lugar onde se aprende, por convivência e imitação, como manipular instrumentos, como julgar se um resultado é confiável, como reconhecer que algo deu errado. A pesquisa de campo em Ciências Sociais é ainda mais dependente desse saber tácito: nenhuma descrição escrita ensina inteiramente como conduzir uma entrevista difícil ou como se comportar numa comunidade que nos recebe.

Para os propósitos deste curso, o ponto essencial é o terceiro elemento: a justificação. É pela natureza da justificação que distinguiremos as formas de conhecimento. Não se trata de perguntar «quem está certo?», mas de perguntar «o que conta como razão suficiente aqui?». O que conta como boa razão para uma afirmação religiosa não é o que conta como boa razão para uma afirmação astronômica, e nem por isso a experiência religiosa é irracional: ela opera em outro registro de validação.

§ 1.2

O senso comum

O senso comum — ou conhecimento vulgar, popular, ordinário — é o estoque de saberes que adquirimos por socialização, sem esforço deliberado de sistematização. É o conhecimento de que o fogo queima, de que chuva de agosto faz mal à horta, de que é melhor não sair sozinho à noite em determinada rua, de que a receita da avó leva uma pitada de sal.

Suas características costumam ser assim descritas:

  • Superficial: conforma-se com a aparência dos fenômenos, sem buscar suas causas profundas. Sabe-se que a lua influencia as marés, sem saber por que.
  • Sensitivo: apoia-se em vivências, emoções e impressões imediatas.
  • Subjetivo: o próprio sujeito organiza suas experiências e valores, sem controle intersubjetivo sistemático.
  • Assistemático: não se organiza em corpo teórico coerente; convive com contradições.
  • Acrítico: raramente questiona seus próprios fundamentos; transmite-se por autoridade e tradição.
  • Valorativo: mistura descrição e prescrição, fato e juízo.

Seria um erro grosseiro, contudo, tratar o senso comum apenas como erro a ser superado. Três observações corrigem essa caricatura.

Primeira: o senso comum é eficaz. Ele resolve a esmagadora maioria dos problemas da vida cotidiana com economia notável. Nenhum de nós calcula a trajetória parabólica de uma bola antes de aparar um arremesso.

Segunda: o senso comum contém conhecimento acumulado, às vezes sofisticado. A etnobotânica e a etnomatemática documentaram sistematicamente saberes populares — de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas — sobre plantas medicinais, ciclos agrícolas, técnicas de construção e sistemas de contagem cuja precisão resiste ao escrutínio científico. Áttico Chassot insiste nesse ponto ao mostrar como a história da ciência é também uma história de apropriações (nem sempre reconhecidas) de saberes populares e não europeus.

Terceira: o senso comum é o solo de onde a ciência parte e ao qual, de algum modo, retorna. Gaston Bachelard dirá que a ciência se constrói contra o senso comum — por ruptura, não por continuidade —, mas «construir contra» implica que é dele que se parte.

§ 1.3

O mito

O mito é uma narrativa que organiza a experiência coletiva, fundando origens, ordens e destinos: de onde viemos, por que as coisas são como são, o que devemos fazer. Não é «ciência mal feita», nem «mentira antiga». É outra operação intelectual, com sua própria lógica.

Claude Lévi-Strauss mostrou, em O pensamento selvagem (1962), que o pensamento mítico opera com classificações rigorosas e combinatórias complexas — ele chamou isso de «ciência do concreto». Longe de ser pré-lógico, o mito organiza o mundo por oposições (cru/cozido, alto/baixo, natureza/cultura) e resolve simbolicamente contradições que a experiência não resolve.

A relação entre mito e filosofia foi durante muito tempo narrada como uma passagem linear: do mythos ao logos. Essa narrativa foi, ela própria, revista. Os primeiros filósofos gregos não abandonam o mito de um dia para o outro: Parmênides expõe sua doutrina numa revelação feita por uma deusa; Platão recorre a mitos (o da caverna, o de Er, o do carro alado) precisamente onde o argumento não alcança. O que muda não é o desaparecimento da narrativa, mas a emergência de uma exigência nova: a de que as afirmações sejam justificadas por razões submetidas ao exame público, e não apenas pela autoridade da tradição ou da inspiração.

§ 1.4

A religião

O conhecimento religioso, ou teológico, apoia-se na revelação e na fé. Suas proposições fundamentais não são estabelecidas por observação nem por demonstração, mas recebidas como dádiva e acolhidas por adesão. É, tipicamente, um conhecimento valorativo, inspiracional, sistemático, não verificável, infalível e exato na taxonomia clássica dos manuais — infalível e exato no sentido de que suas verdades, uma vez estabelecidas pela autoridade doutrinária, não se submetem à revisão pela experiência.

Duas precisões são necessárias. A primeira: a teologia é intelectualmente sofisticada e produziu, historicamente, argumentação rigorosa (pense-se em Tomás de Aquino, Maimônides ou Averróis). A segunda: a relação histórica entre religião e ciência é muito mais complexa do que a imagem de guerra permanente sugere. Mosteiros copiaram e preservaram textos científicos; a astronomia islâmica medieval floresceu em contexto religioso; Newton dedicou mais páginas à teologia do que à física. Houve conflitos agudos — o processo de Galileu, a recepção do darwinismo — mas «conflito permanente» é uma simplificação historiográfica hoje criticada.

§ 1.5

A arte

A arte também conhece — ou, mais precisamente, produz uma forma de compreensão que não se reduz a proposições verificáveis. Um romance pode iluminar a experiência da humilhação social com uma acuidade que nenhuma tabela de indicadores alcança; uma fotografia pode tornar sensível uma desigualdade que estatísticas apenas registram.

Para as Ciências Sociais isso não é irrelevante. Pesquisadores recorrem frequentemente a obras literárias como fontes, como provocações teóricas ou como modelos de escrita. A distinção importante não é entre «arte subjetiva» e «ciência objetiva» — as Ciências Sociais lidam com sentidos e interpretações o tempo todo —, mas entre modos de validação: a obra de arte não pretende ser reproduzida por outro artista com resultados equivalentes, ao passo que a pesquisa deve poder ser examinada, criticada e, em alguma medida, refeita por outros.

§ 1.6

A filosofia

O conhecimento filosófico é conceitual, argumentativo e reflexivo. Distingue-se do científico menos pelo objeto do que pelo método: a filosofia não recorre à experimentação nem à mensuração, e sim à análise de conceitos, à construção de argumentos e ao exame de pressupostos. Suas questões são frequentemente de segunda ordem: não «qual é a causa deste fenômeno?», mas «o que é uma causa?»; não «esta pesquisa é válida?», mas «o que torna uma pesquisa válida?».

A relação com a ciência é constitutiva em ambas as direções. Historicamente, as ciências particulares se desprenderam da filosofia — a física no século XVII, a química no XVIII, a biologia e a sociologia no XIX, a psicologia na virada para o XX. E a filosofia continua a acompanhá-las: a epistemologia e a filosofia da ciência, que o livro estuda no capítulo 4, examinam os fundamentos, os métodos e as pretensões de validade do conhecimento científico. Toda metodologia é, no fundo, filosofia aplicada.

§ 1.7

A técnica e a tecnologia

A técnica é o saber-fazer orientado à transformação do mundo. Precede largamente a ciência: houve metalurgia, agricultura, arquitetura, navegação e medicina eficazes muito antes que existissem teorias científicas capazes de explicá-las. A relação clássica — «a tecnologia é ciência aplicada» — é historicamente falsa como descrição geral. A máquina a vapor não nasceu da termodinâmica; foi a termodinâmica que nasceu, em boa medida, do esforço de entender a máquina a vapor.

A partir do século XIX, contudo, a relação se estreita e se torna recíproca: a ciência passa a depender de instrumentação cada vez mais sofisticada (que é tecnologia), e a inovação tecnológica passa a depender de pesquisa básica. É o que se chama de tecnociência: um regime em que produção de conhecimento e produção de artefatos são inseparáveis, e no qual entram em cena financiamento, patentes, interesses industriais e políticas de Estado.

§ 1.8

O conhecimento científico

Podemos agora caracterizar, provisoriamente, o que distingue a ciência. A tradição dos manuais brasileiros — consolidada em Lakatos e Marconi — descreve o conhecimento científico como real (factual), contingente, sistemático, verificável, falível e aproximadamente exato:

Real ou factual
Lida com fatos, ocorrências e processos, e não com entidades postuladas fora de qualquer possibilidade de contato empírico.
Contingente
Suas proposições podem ser verdadeiras ou falsas; a decisão depende da experiência, não apenas da razão. (As proposições necessárias, como as da lógica e da matemática, têm outro estatuto.)
Sistemático
Organiza-se em corpo teórico ordenado, e não em coleção de informações avulsas.
Verificável
Suas hipóteses devem poder ser submetidas a verificação — ou, na formulação de Popper, a falsificação.
Falível
Não é definitivo; reconhece-se corrigível e, de fato, corrige-se.
Aproximadamente exato
Novas técnicas e novas teorias reformulam o que se tinha por adquirido.

A tabela a seguir sintetiza o percurso do capítulo. Ela deve ser lida como instrumento didático, não como classificação rígida: as fronteiras são porosas e historicamente móveis.

Formas de conhecimento: uma comparação didática
FormaFonte principalCritério de validaçãoFinalidade típica
Senso comumExperiência cotidiana, tradiçãoEficácia prática imediataOrientar a vida diária
MitoNarrativa coletivaCoerência simbólica, pertencimentoFundar sentido e ordem
ReligiãoRevelação, autoridade doutrináriaFé, tradição, magistérioSalvação, sentido último
ArteCriação, sensibilidadeForça expressiva, verossimilhançaTornar sensível a experiência
FilosofiaRazão, análise conceitualConsistência argumentativaEsclarecer conceitos e fundamentos
TécnicaFazer acumuladoFuncionamento, eficiênciaTransformar o mundo
CiênciaObservação, experimento, teoriaControle público do erro; evidênciaExplicar, prever, compreender

§ 1.9

Ecologia de saberes: contra a hierarquia automática

Uma ressalva final, e importante para as Ciências Sociais. A classificação acima pode induzir a uma leitura evolutiva: primeiro o mito, depois a religião, depois a filosofia, enfim a ciência — como se a humanidade subisse degraus. Essa leitura, associada ao positivismo de Auguste Comte e à sua «lei dos três estados» (teológico, metafísico, positivo), é hoje amplamente criticada.

Boaventura de Sousa Santos propõe, em contraposição, a noção de ecologia de saberes: em vez de uma escala única, uma pluralidade de conhecimentos com validades distintas e complementares, cujo diálogo é epistemologicamente produtivo. A crítica tem consequências práticas para o pesquisador em Ciências Humanas: quando estudamos comunidades tradicionais, movimentos sociais, práticas escolares ou religiosidades populares, os sujeitos da pesquisa não são apenas «objetos» portadores de crenças a serem explicadas; são também produtores de conhecimento sobre suas próprias condições de vida.

Isso não dissolve a especificidade da ciência — que continua sendo o compromisso com procedimentos públicos, explícitos e criticáveis —, mas desfaz a arrogância epistemológica que confunde diferença com superioridade.

Atividades e exercícios

Para fazer depois da leitura

  1. Escolha uma afirmação que você considere verdadeira sobre o mundo social (por exemplo: «jovens de periferia têm menos chance de concluir o ensino superior»). Identifique: (a) qual é sua fonte; (b) que justificação você poderia oferecer; (c) que evidência a refutaria. Compare o resultado com o de um colega.
  2. Escolha uma prática de conhecimento popular de sua região (medicina caseira, calendário agrícola, técnica artesanal). Descreva-a em uma página e discuta: que critérios de validação essa prática mobiliza? Como uma pesquisa científica poderia estudá-la sem desqualificá-la?
  3. Leia o mito da caverna (Platão, A República, livro VII) e identifique: que teoria do conhecimento está implicada? Que relação a alegoria estabelece entre aparência, opinião e saber?
  4. Discuta em grupo: a afirmação «a ciência é apenas mais uma narrativa entre outras» é defensável? Formule o melhor argumento a favor e o melhor argumento contra, e só então tome posição.
  5. Elabore, individualmente, um quadro comparativo entre senso comum e ciência a partir de um mesmo objeto (por exemplo, a violência urbana), especificando como cada forma de conhecimento formularia a questão, buscaria respostas e justificaria conclusões.

Exercício · revisão do capítulo

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o capítulo. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece abaixo do botão, com quantas você acertou, as questões certas, erradas e em branco, a resposta correta e uma explicação para cada questão.

1 Os três sentidos do verbo «saber» distinguidos pela tradição filosófica são:

Saber que (enunciados verdadeiros ou falsos), saber como (habilidades nem sempre verbalizáveis) e saber de (contato direto com pessoas, lugares e experiências). Veja § 1.1.

2 Os contraexemplos de Edmund Gettier (1963) mostram que:

Gettier problematizou a fórmula «crença verdadeira justificada», discutida desde o Teeteto de Platão. Veja o conceito-chave do § 1.1.

3 Segundo o capítulo, o critério central para distinguir as formas de conhecimento é:

O ponto essencial é a justificação. A pergunta não é «quem está certo?», mas «o que conta como razão suficiente aqui?». Veja § 1.1.

4 Qual afirmação sobre o senso comum está de acordo com o capítulo?

O capítulo corrige a caricatura com três observações: eficácia, conhecimento acumulado (etnobotânica, etnomatemática) e o fato de a ciência partir dele, ainda que por ruptura (Bachelard). Veja § 1.2.

5 Para Lévi-Strauss, em O pensamento selvagem, o pensamento mítico:

O mito organiza o mundo por oposições (cru/cozido, natureza/cultura) e resolve simbolicamente contradições. Veja § 1.3.

6 Na passagem do mythos ao logos, o que muda, segundo o capítulo?

Parmênides e Platão ainda recorrem a mitos; o novo é a exigência de justificação pública, não o fim da narrativa. Veja § 1.3.

7 Sobre a «tese do conflito» entre ciência e religião, o capítulo afirma que:

Houve conflitos reais, mas a ideia de guerra permanente simplifica episódios heterogêneos; trata-se de historicizá-los. Veja § 1.4.

8 O que diferencia a filosofia da ciência, segundo o capítulo?

Perguntas como «o que é uma causa?» ou «o que torna uma pesquisa válida?» são de segunda ordem. Veja § 1.6.

9 A afirmação «a tecnologia é ciência aplicada», como descrição geral, é:

Só a partir do século XIX a relação se torna recíproca, no regime chamado tecnociência. Veja § 1.7.

10 A noção de «ecologia de saberes», de Boaventura de Sousa Santos, propõe:

A ecologia de saberes desfaz a arrogância que confunde diferença com superioridade, sem dissolver a especificidade da ciência. Veja § 1.9.