Curso c/ melhores livros · Filosofia Política · Wolff, capítulo 1
Hobbes e o estado de natureza
«… e a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.»
Hobbes, Leviatã (1651), cap. XIII
Como seria a vida sem governo? Na seção sobre Hobbes do capítulo 1 de An Introduction to
Political Philosophy, Jonathan Wolff reconstrói o argumento do Leviatã: por que, sem um
poder comum, pessoas racionais acabariam numa guerra de todos contra todos — e por que isso nos daria
razões para querer um Estado.
Ficha de leitura · Wolff, An Introduction to Political Philosophy, cap. 1 «The State of Nature», seção «Hobbes» · síntese em palavras próprias
Vivemos cercados de instituições políticas — governos, polícia, tribunais — que reivindicam o direito de
nos dar ordens e nos punir se desobedecermos. Isso pode parecer uma interferência intolerável. Mas qual seria
a alternativa? Wolff propõe começar pela ausência: para entender por que temos algo, ajuda imaginar como
seria não tê-lo.
Como não dá para abolir o Estado só para ver o que acontece, faz-se um experimento de
pensamento: imagina-se um estado de natureza, uma situação em que ninguém
detém poder político. A pergunta histórica — se esse estado já existiu — importa pouco. Basta aceitar que ele
é possível. Contra a ideia, associada a Aristóteles, de que o Estado é natural ao ser humano,
Wolff observa que seria muito difícil provar que viver sem Estado é absolutamente impossível.
§ 2 · A natureza humana
Corpos em movimento que nunca descansam
O Leviatã nasce do medo da guerra civil: Hobbes viu a Inglaterra se dilacerar (1642–1651) e
passou esse período exilado na França. Para ele, nada é pior que a vida sem a proteção do Estado; por isso,
um governo forte é indispensável.
Por que o estado de natureza seria tão terrível? Porque, sem governo, a natureza humana
nos levaria ao conflito. A filosofia política começa, então, pelo estudo do ser humano, e Hobbes usa duas
chaves: a introspecção (olhar honestamente para nossos pensamentos, esperanças e medos) e a
física. Como materialista, ele pensa que somos inteiramente feitos de matéria.
Da física, o ponto decisivo é o princípio de conservação do movimento de Galileu:
o que precisa ser explicado não é por que algo continua em movimento, mas por que muda de direção ou para.
Aplicado a nós, isso gera um retrato mecanicista: o coração é uma mola, os nervos são cordas,
as articulações são rodas; o desejo é um movimento interno em direção a um objeto. E, como a vida é movimento,
nunca chegamos a um repouso definitivo da mente.
Buscamos a felicidade (felicity): o sucesso contínuo em obter aquilo
que desejamos. É essa busca que, sem Estado, nos levará à guerra.
§ 3 · Poder, igualdade, escassez
Da competição à guerra
Hobbes define poder como os meios presentes de obter algum bem futuro aparente.
Riqueza, reputação e amigos são fontes de poder. Para garantir a felicidade, é preciso ser poderoso — e nunca
basta: o poder que se tem só fica assegurado se se adquire mais. Como todos fazem o mesmo, a busca de poder é,
por natureza, competitiva.
Mas competição não é guerra. Wolff mostra três suposições que fazem a passagem:
Igualdade natural: não no sentido moral de que devemos respeito mútuo, mas no sentido de
que força e habilidade são aproximadamente iguais — qualquer um pode matar qualquer outro, por astúcia ou
aliando-se a outros.
Escassez: duas pessoas que desejam o mesmo tipo de coisa muitas vezes desejam a mesma coisa.
Incerteza: ninguém se torna invulnerável. Quem possui algo pode ser atacado; quem nada
possui pode ser visto como ameaça e sofrer um ataque preventivo.
Há ainda um agravante: como ter reputação de poder já é poder, alguns atacam até quem não ameaça
ninguém, só para parecer fortes — como no pátio da escola, onde quem tem fama de vencer brigas é menos
incomodado (e mais visado por quem quer a mesma fama).
§ 4 · Duas objeções e as respostas de Hobbes
Não é crueldade: é medo
«Isso supõe pessoas cruéis ou egoístas demais.» Hobbes nega a crueldade: ninguém, pensa ele,
sente prazer no mal alheio sem visar algum fim próprio. Quanto ao egoísmo, admite que em geral buscamos
satisfazer desejos centrados em nós, mas a fonte de guerra tão ou mais importante é o
medo de que os outros nos tomem o que temos. Ataca-se não só para ganhar, mas para
se proteger: uma guerra em que todos lutam, de certo modo, em legítima defesa.
«Ninguém viveria o tempo todo com a faca nos dentes.» Hobbes concorda: a
guerra não é luta constante, mas disposição constante para lutar,
sem que ninguém possa baixar a guarda. E pede que olhemos para nós mesmos: mesmo sob leis, trancamos portas
contra vizinhos e gavetas contra a própria família. Sem Estado, a desconfiança seria muito maior.
O resultado é a famosa descrição: sem segurança sobre os frutos do trabalho, não há agricultura, navegação,
construções, ciência, artes, letras ou sociedade — apenas medo contínuo e perigo de morte violenta.
§ 5 · Há moral sem Estado?
O direito de natureza
Uma objeção mais séria: Hobbes teria esquecido a moralidade. A maioria de nós acha errado
atacar e roubar; essa maioria não conteria a minoria violenta? Wolff separa duas perguntas: (1) para Hobbes, há
moral no estado de natureza? (2) se há, ela basta para motivar as pessoas a não atacar?
À primeira vista, Hobbes diz que não: nessa guerra, nada pode ser injusto. O argumento é que a
injustiça é a violação de uma lei; lei exige um legislador, um poder comum capaz de impô-la; sem poder comum,
não há lei, logo não há injustiça.
Cada um tem então a liberdade de usar seu poder para preservar a própria vida, fazendo o que julgar mais
apto para isso — o direito de natureza. Daí que, nessa condição, todos têm direito a
tudo, até ao corpo dos outros. Wolff sugere que a posição é menos extrema do que parece: todos aceitamos o
direito à autodefesa; sem um juiz comum, cada um decide o que conta como ameaça; e o ataque preventivo é uma
forma de defesa.
§ 6 · As leis de natureza
Teoremas da razão
A história se complica: além do direito, Hobbes afirma que existem leis de natureza
no estado de natureza. A primeira, fundamental: procurar a paz enquanto houver esperança de
obtê-la e, quando não houver, usar todas as vantagens da guerra. A segunda: renunciar ao direito
a todas as coisas, desde que os outros também o façam, contentando-se com tanta liberdade em relação aos outros
quanto se concederia a eles. A terceira, decisiva para o contrato social: cumprir os pactos
que se faz.
São dezenove ao todo, deriváveis da lei fundamental e resumíveis na regra de ouro em forma
negativa: não faças ao outro o que não queres que te façam.
Isso parece um código moral — e contradizer a tese de que não há certo e errado no estado de natureza. Mas
Hobbes não as apresenta como leis morais, e sim como teoremas ou conclusões da razão: regras
que dão a cada um a melhor chance de preservar a própria vida.
§ 7 · O nó do argumento
Racionalidade individual e racionalidade coletiva
Surge um novo problema: se é racional atacar (por isso há guerra), como pode ser racional buscar a paz? A
resposta de Wolff é distinguir a racionalidade individual da
racionalidade coletiva — o que é melhor para cada um supondo que todos ajam do mesmo
modo. As leis de natureza exprimem a racionalidade coletiva.
O exemplo dos camponeses (Sartre). Cada camponês de uma encosta percebe que, derrubando suas
árvores, ganha terra para plantar; a derrubada de um só lote não muda nada na erosão. Todos derrubam. Na
primeira tempestade, a chuva leva o solo e arruína todos. Para cada um, derrubar era racional; para o conjunto,
foi um desastre.
Situações desse tipo têm a estrutura do dilema do prisioneiro: quando as duas
racionalidades divergem, a cooperação é instável. Mesmo que os camponeses façam um acordo, cada um tem motivo
para romper — e, se um pode, todos podem. No estado de natureza, atacar é individualmente racional; mas as leis
de natureza mostram que a guerra não é inevitável, se conseguirmos subir ao nível da racionalidade coletiva.
§ 8 · A saída
Foro interno, foro externo e o soberano
Temos, então, o dever de obedecer às leis de natureza? Hobbes responde que elas obrigam
in foro interno (no foro íntimo), mas nem sempre in foro externo (na ação). Devemos desejar
que vigorem e levá-las em conta ao deliberar; mas, se os outros as violam — ou se temos suspeita razoável de que
violarão —, obedecer seria tolo: quem o fizer se torna presa dos outros. Na linguagem da teoria dos jogos, seria
o «otário».
Assim, o ponto não é exatamente que a moral não se aplica no estado de natureza, mas que o grau de
desconfiança é tão alto que quase sempre estamos desculpados por não cumpri-la. Só devemos agir
moralmente quando há segurança de que os outros também o farão — o que, ali, quase nunca acontece.
A saída é criar um soberano que puna severamente quem descumpre as leis. Se ele for
eficaz, ninguém terá suspeita razoável de ataque, e desaparece a desculpa para invadir. A grande vantagem do
Estado é criar as condições em que se pode seguir com segurança as leis de natureza.
Síntese
O estado de natureza em Hobbes, segundo Wolff
Todos desconfiam, com razão, de todos. É essa desconfiança — e não mero egoísmo ou sadismo — que leva à
guerra, em que se ataca por ganho, segurança e reputação. A guerra se alimenta de si mesma: a suspeita razoável
de violência gera uma espiral crescente de violência. Ninguém planta, cultiva ou faz planos de longo prazo;
artes e ciências não florescem. O Estado aparece como a condição para sair dessa armadilha.
Para pensar
Você se convence de que a desconfiança, sozinha, basta para gerar a guerra? Que suposição de Hobbes você
contestaria primeiro?
Dê um exemplo atual em que a racionalidade individual e a coletiva divergem. Que «soberano» resolveria o caso?
Se as leis de natureza são só teoremas da razão, ainda faz sentido chamá-las de morais?
Exercício · revisão da leitura
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre a seção de Hobbes. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece abaixo do botão, com quantas você
acertou, as questões certas, erradas e em branco, a resposta correta e uma explicação para cada questão.