Segundo período · 07 · Pré-socráticos · c. 610 — c. 546 a.C.
Anaximandro de Mileto
Discípulo de Tales, e o primeiro a discordar do mestre por escrito. O princípio não pode ser a água
nem nenhum elemento: tem que ser algo sem limite e sem qualidade definida — o ápeiron.
c. 610 a.C.Nasce em Mileto. Teofrasto o chama de «sucessor e discípulo» de Tales.
séc. VI a.C.Escreve em prosa um livro depois chamado Sobre a natureza — o primeiro texto filosófico grego de que se tem notícia.
séc. VI a.C.Desenha o primeiro mapa do mundo habitado, segundo Eratóstenes.
547/6 a.C.Tinha 64 anos, segundo Apolodoro, citado por Diógenes Laércio. Morre pouco depois.
séc. VI d.C.Simplício copia, a partir de Teofrasto, a única frase dele que sobreviveu.
Anaximandro aceita a pergunta de Tales — qual é a arché? — e recusa a resposta.
O princípio, diz ele, é o ápeiron: palavra formada por a- (sem) e
péras (limite). Ilimitado em extensão, porque nunca se esgota; indeterminado em qualidade,
porque não é quente nem frio, nem seco nem úmido.
O argumento chegou até nós por Aristóteles (Física III, 5). Os elementos são contrários
entre si: a água é fria e úmida, o fogo é quente e seco. Se um deles fosse o princípio ilimitado,
já teria vencido e destruído os outros. Para que os contrários convivam, o princípio tem que estar
acima deles e não ser nenhum deles.
§ 2 · DK 12 B1
A única frase que sobrou
De todo o livro, restou uma frase, transcrita por Simplício a partir de Teofrasto. Os especialistas
discutem onde começa e onde termina a citação, mas o núcleo é este:
De onde as coisas têm origem, para lá também se dá a sua destruição, segundo a necessidade;
pois pagam umas às outras a pena e a reparação da sua injustiça, segundo a ordem do tempo.
Anaximandro, DK 12 B1
O vocabulário é de tribunal: díke (justiça), adikía (injustiça),
pena, reparação. As coisas são os contrários — o quente, o frio, o seco, o úmido. No verão o quente
avança sobre o frio e comete uma «injustiça»; no inverno paga a pena e o frio avança. O tempo é o juiz
que restabelece o equilíbrio.
O cosmos, então, é uma ordem, e uma ordem que se parece com a da cidade: ninguém domina para sempre.
A natureza tem uma lei, e a lei é a mesma para todas as coisas.
§ 3 · Cosmologia
A terra suspensa no meio do nada
Do ápeiron se separa um germe do quente e do frio. Uma esfera de fogo cresce em volta do ar que envolve
a terra, «como a casca em volta da árvore». A esfera se rompe em anéis: rodas de fogo
encobertas por névoa, com uma abertura por onde o fogo aparece. O que chamamos de sol, lua e estrelas
são essas aberturas. Os eclipses são as aberturas se fechando.
A terra tem forma de cilindro, como um tambor de coluna, com altura igual a um terço da
largura. Vivemos na face de cima. E ela não se apoia em nada:
Há os que dizem que ela permanece no lugar por causa da semelhança, como Anaximandro: pois o que está
no centro, a igual distância dos extremos, não tem por que se mover mais para cima que para baixo
ou para os lados.
Aristóteles, Do céu II, 13, 295b
§ 4 · Os vivos
Gente que nasceu dentro de peixes
Os primeiros animais, segundo os relatos de Aécio e Censorino, nasceram no úmido, envoltos em cascas
espinhosas. Com o tempo foram para a terra seca, a casca se rompeu e eles passaram a viver de outro modo.
E o ser humano? Anaximandro nota algo que ninguém tinha notado: o bebê humano não sobrevive sozinho, precisa de
cuidado por muito tempo. Se o primeiro homem tivesse nascido como hoje, teria morrido. Logo, os primeiros
humanos se formaram dentro de outros animais, semelhantes a peixes, e só saíram quando já eram capazes de
se manter.
Anaximandro também é lembrado como homem prático: teria desenhado o primeiro mapa do mundo
habitado e introduzido na Grécia o gnômon, a haste do relógio de sol.
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das
questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.