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Segundo período · 08 · Ficha de estudo

A teoria política de Rousseau

Em pleno século das Luzes, o filho de um relojoeiro de Genebra diz que o progresso nos tornou piores, que a propriedade foi uma fraude e que a única liberdade digna do nome é obedecer a uma lei que nós mesmos nos demos. A Revolução Francesa vai levar isso a sério.

  1. 1712Nasce em Genebra, uma república calvinista. A mãe morre dias depois do parto.
  2. 1750O Discurso sobre as ciências e as artes vence o concurso da Academia de Dijon.
  3. 1755Publica o Discurso sobre a origem da desigualdade.
  4. 1762Do contrato social e Emílio. Os dois são condenados em Paris e em Genebra, e ele foge.
  5. 1778Morre em Ermenonville, perto de Paris.
  6. 1794A Revolução leva seus restos ao Panthéon.

§ 1 · Contexto

Um iluminista contra as Luzes

Rousseau assinava seus livros como «cidadão de Genebra», e isso diz muito: ele vinha de uma pequena república onde os cidadãos se reuniam em assembleia, e viveu boa parte da vida na França de Luís XV, uma monarquia absoluta cheia de salões elegantes. Foi amigo dos enciclopedistas, como Diderot, e depois brigou com quase todos eles.

A ruptura começa em 1749. Indo a pé visitar Diderot na prisão de Vincennes, ele lê o tema de um concurso: o progresso das ciências e das artes contribuiu para melhorar os costumes? Rousseau responde que não. O refinamento ensinou os homens a parecer, e não a ser; a polidez esconde a vaidade; o luxo corrompe.

§ 2 · Segundo discurso, parte I

O homem natural

Como Hobbes, Rousseau imagina um estado de natureza. Mas o resultado é o oposto. O homem natural vive isolado, sem linguagem, sem família estável, sem propriedade, com poucas necessidades que a natureza satisfaz com facilidade. Não tem por que guerrear com ninguém: mal encontra os outros.

Dois sentimentos anteriores à razão o movem. O amor de si, que leva cada ser a cuidar da própria conservação; e a piedade, uma repugnância natural em ver sofrer outro ser sensível. E duas capacidades o separam dos animais: a liberdade, de aceitar ou recusar o que a natureza ordena, e a perfectibilidade, a capacidade de se transformar — que é também a fonte de todas as nossas desgraças.

§ 3 · Segundo discurso, parte II

Como nasceu a desigualdade

Rousseau distingue duas desigualdades. A natural ou física — idade, saúde, força — é pequena e pouco importa. A moral ou política — ser mais rico, mais honrado, mais poderoso — depende de uma convenção. É desta que ele quer contar a origem.

Aos poucos os homens se aproximam: cabanas, famílias, as primeiras aldeias. Começam a se reunir diante das cabanas para cantar e dançar — e cada um passa a olhar os outros e a querer ser olhado. Nasce o amor-próprio, o desejo de ser preferido, a comparação, a inveja. Com a metalurgia e a agricultura vem a divisão das terras.

O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer «isto é meu» e encontrou pessoas bastante simples para acreditar nele foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Rousseau, Discurso sobre a desigualdade, parte II

A propriedade leva a um estado de guerra entre ricos e pobres. É então que os ricos têm a ideia mais engenhosa da história: propor a todos um pacto de paz, com leis e juízes «para proteger os fracos». Os pobres aceitam — e correm ao encontro das próprias correntes. As leis transformam a usurpação em direito.

§ 4 · Contrato social, I

O pacto legítimo

O homem nasceu livre, e por toda parte encontra-se a ferros. Rousseau, Do contrato social, I.1

Rousseau não pergunta como isso aconteceu — isso já foi feito no Discurso. Pergunta o que poderia tornar essa situação legítima. A força não serve: «o direito do mais forte» é contraditório, porque ceder à força é ato de necessidade, não de vontade (I.3). A escravidão voluntária também não: renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem (I.4). Só resta uma convenção.

O problema que o contrato precisa resolver é formulado assim (I.6): encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedeça a si mesmo e permaneça tão livre quanto antes.

Diferença decisiva em relação a Hobbes: os indivíduos não transferem seu poder a um soberano separado deles. O pacto cria um corpo moral e coletivo, e o soberano é esse corpo — o próprio povo. Os mesmos indivíduos são, ao mesmo tempo, cidadãos (participam da soberania) e súditos (obedecem às leis).

§ 5 · Contrato social, I.7–II

A vontade geral

A soberania é o exercício da vontade geral, e o conceito mais importante do livro está numa distinção (II.3). A vontade de todos é a soma das vontades particulares, cada um pensando no seu interesse privado. A vontade geral visa só o interesse comum. Uma maioria pode querer algo que não é a vontade geral; e a vontade geral é sempre reta, embora as deliberações do povo nem sempre acertem.

Por isso a soberania é inalienável — o poder pode ser transmitido, a vontade não (II.1) — e indivisível (II.2). E a lei é o ato da vontade geral que estatui sobre um objeto geral: ela pode criar privilégios, mas não nomear quem os recebe (II.6).

Três liberdades

Ao passar do estado de natureza ao civil (I.8), o homem perde a liberdade natural, limitada só pela força, e ganha a liberdade civil, limitada pela vontade geral, e a propriedade garantida. Ganha também a liberdade moral, a única que o torna senhor de si: «o impulso só do apetite é escravidão, e a obediência à lei que se prescreveu a si mesmo é liberdade».

§ 6 · Contrato social, III–IV

Governo e representação

Rousseau separa com cuidado o soberano, que faz as leis, do governo, que as executa (III.1). O governo é só um corpo intermediário, um comissário do povo que pode ser trocado quando o povo quiser. As formas de governo — democracia, aristocracia, monarquia — servem a Estados de tamanhos diferentes; nenhuma é a melhor em todos os casos.

E a soberania não pode ser representada, pela mesma razão que não pode ser alienada (III.15). Os deputados do povo não são seus representantes, apenas seus comissários; não podem decidir nada em definitivo. Toda lei que o povo não ratificou pessoalmente é nula.

O povo inglês pensa ser livre; engana-se muito. Só o é durante a eleição dos membros do Parlamento; assim que eles são eleitos, ele é escravo, não é nada. Rousseau, Do contrato social, III.15

O livro termina com a proposta de uma religião civil (IV.8): poucos dogmas simples, como a existência de Deus, a vida futura e a santidade do contrato e das leis, que todo cidadão deve professar — uma das partes mais discutidas e menos aceitas da obra.

§ 7 · Recepção

Pai da democracia ou da Revolução?

Os revolucionários franceses fizeram de Rousseau um santo cívico, e Robespierre o citava como mestre. A Declaração de 1789 diz que «a lei é a expressão da vontade geral». Kant, que tinha um retrato de Rousseau no escritório, transformou a ideia de obedecer à lei que se dá a si mesmo na noção de autonomia.

As críticas vieram cedo. Benjamin Constant, em 1819, acusou Rousseau de confundir a liberdade dos antigos — participar do poder coletivo — com a dos modernos, que é a independência privada; a soberania ilimitada do povo poderia esmagar o indivíduo. No século XX, Jacob Talmon chamou seu pensamento de «democracia totalitária».

Exercício

Questionário

Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.

1 Qual foi a resposta de Rousseau no Discurso sobre as ciências e as artes?

Contra o otimismo das Luzes, Rousseau sustenta que o refinamento trouxe vaidade, luxo e hipocrisia. É o ponto de partida da sua crítica à sociedade.

2 Quais são os dois sentimentos anteriores à razão no homem natural?

O amor de si leva à autoconservação; a piedade, a não querer ver o outro sofrer. O amor-próprio e a inveja só nascem na sociedade, com a comparação. O medo e a glória lembram Hobbes.

3 Qual é a principal crítica de Rousseau ao estado de natureza de Hobbes?

Orgulho, cobiça e desejo de dominar não são naturais, segundo Rousseau. A guerra de todos contra todos é o resultado da sociedade, não o ponto de partida. O «animal político» é Aristóteles.

4 O que é a perfectibilidade?

Junto com a liberdade, ela separa o humano do animal. Mas não garante progresso: foi por ela que o homem saiu do estado de natureza e se corrompeu.

5 «O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer “isto é meu”...» foi, segundo Rousseau:

E ainda encontrou «pessoas bastante simples para acreditar nele». A propriedade é o momento decisivo da desigualdade moral ou política.

6 No Segundo discurso, como surgem as leis e o Estado?

Diante da guerra entre ricos e pobres, os ricos propõem leis «para proteger os fracos». Os pobres aceitam e correm ao encontro das próprias correntes. É um falso contrato.

7 Por que, no Contrato social, o «direito do mais forte» não pode fundar a legitimidade?

Se a força fizesse o direito, bastaria ser mais forte para ter razão, e a obediência acabaria quando a força acabasse (I.3). Só uma convenção pode ser legítima.

8 No pacto social de Rousseau, quem é o soberano?

Ao contrário de Hobbes, ninguém transfere o poder a um terceiro. Cada um se dá a todos, e o soberano é a comunidade inteira. Os mesmos indivíduos são cidadãos e súditos.

9 Qual a diferença entre vontade geral e vontade de todos?

É a distinção central do livro II (II.3). Uma maioria pode expressar só a soma de interesses privados. A vontade geral é sempre reta, embora o povo possa se enganar sobre ela.

10 O que Rousseau chama de liberdade moral?

«O impulso só do apetite é escravidão» (I.8). A ausência de impedimentos externos é a definição de Hobbes. Kant vai transformar a ideia de Rousseau na noção de autonomia.

11 Por que Rousseau diz que o povo inglês só é livre durante a eleição do Parlamento?

A vontade não se transmite, logo não se representa (III.15). Os deputados são só comissários, e a lei que o povo não ratificou pessoalmente é nula.

12 Qual autor, em 1819, acusou Rousseau de confundir a liberdade dos antigos com a dos modernos?

Para Constant, os modernos querem sobretudo independência privada, e uma soberania popular ilimitada pode esmagar o indivíduo. Arendt fez outra crítica, no século XX, à vontade geral na Revolução Francesa.