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Primeiro período · 04 · Metafísicas · Parmênides de Eleia, séc. V a.C.

Metafísica e Parmênides

A disciplina começa por uma pergunta que parece simples demais: o que quer dizer que algo é? A primeira parte desta ficha mostra o que a tradição chamou de metafísica. A segunda volta ao primeiro pensador que levou essa pergunta até o fim e chegou a uma conclusão difícil de aceitar e mais difícil ainda de refutar: o ser é, o não-ser não é, e a mudança que vemos é engano.

  1. c. 540 a.C.Fundação de Eleia (Vélia), colônia grega no sul da Itália.
  2. c. 515 a.C.Nascimento provável de Parmênides, data que se deduz do diálogo Parmênides, de Platão.
  3. c. 500–480 a.C.Compõe o poema em hexâmetros que a tradição intitulou Sobre a natureza. Teria também dado leis a Eleia.
  4. c. 450 a.C.Visita Atenas com Zenão e, segundo Platão, conversa com um Sócrates ainda jovem.
  5. séc. IV a.C.Aristóteles escreve os tratados sobre a «filosofia primeira»; Platão, no Sofista, enfrenta o «pai Parmênides».
  6. séc. I a.C.Andrônico de Rodes organiza as obras de Aristóteles e põe aqueles tratados depois da Física: nasce o nome «metafísica».
  7. séc. VI d.C.Simplício copia longos trechos do poema nos comentários a Aristóteles. É a ele que devemos quase todo o fragmento B8.

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Parte I · Metafísica

§ 1 · O nome

Os livros que vinham depois da Física

A palavra não foi inventada por um filósofo para nomear uma disciplina. Quando Andrônico de Rodes organizou os escritos de Aristóteles, no século I a.C., um conjunto de tratados ficou arrumado depois dos livros sobre a natureza: ta metà ta physiká, «os que vêm depois dos físicos». O rótulo de biblioteca pegou, e só mais tarde passou a ser lido como «o que está além da natureza».

O próprio Aristóteles nunca usou a palavra. Para aquela investigação ele tinha outros nomes: filosofia primeira, sabedoria (sophía) e, às vezes, teologia, porque o ente mais alto que ela estuda é o divino.

§ 2 · O objeto

O ente enquanto ente

Há uma ciência que investiga o ente enquanto ente e o que lhe pertence por si mesmo. Ela não se confunde com nenhuma das ciências particulares, pois nenhuma delas examina o ente em geral enquanto ente. Aristóteles, Metafísica IV (Γ), 1, 1003a21–26

A biologia estuda os entes enquanto vivos; a matemática, enquanto quantidades; a física, enquanto em movimento. Cada ciência recorta uma parte do que existe e um aspecto dela. A filosofia primeira não recorta: pergunta o que vale para tudo o que é, só por ser. Por isso a tradição posterior, a partir do século XVII, também a chamou de ontologia, o discurso sobre o ente.

A dificuldade aparece logo em seguida: «o ente se diz de muitos modos» (Metafísica IV, 2). Dizemos que Sócrates é, que ele é branco, que é alto, que está na praça. O verbo não quer dizer a mesma coisa em todos os casos, mas também não é uma coincidência de palavras: todos os sentidos remetem a um primeiro, a substância (ousía), a coisa que existe por si e da qual as outras coisas se dizem.

§ 3 · As perguntas

O que a metafísica pergunta

Hoje, os manuais de metafísica (como o de Brian Garrett, base da disciplina) organizam o campo por problemas, e não por autores. Alguns dos mais conhecidos:

  • Existência: o que significa dizer que algo existe? Existem números, ou só coisas contadas?
  • Identidade e mudança: o que faz uma árvore ser a mesma árvore depois de perder todas as folhas? E uma pessoa, ao longo de oitenta anos?
  • Universais: quando duas camisas são vermelhas, o «vermelho» é uma coisa a mais, presente nas duas, ou só um nome?
  • Necessidade e possibilidade: o que poderia ter sido diferente, e o que não poderia? (É o terreno de Kripke.)
  • Causalidade, tempo, mente e liberdade: o que é uma causa, se o tempo passa, se a mente é algo além do corpo, se escolhemos.

Uma pergunta é metafísica quando nenhum experimento a resolve sozinho, porque ela trata do que precisa valer para que haja experimento: que as coisas existam, permaneçam, mudem e sejam contáveis. E a mais radical de todas — por que há algo e não antes o nada? — foi formulada por Leibniz e retomada por Heidegger como a pergunta de onde a metafísica nasce.

Parte II · Parmênides de Eleia

§ 4 · O poema

Uma viagem até a deusa

Parmênides escreveu em versos, no mesmo metro de Homero e Hesíodo. Sobraram cerca de 160 versos, reunidos por Diels e Kranz no capítulo 28 (DK 28). O poema abre com um proêmio: um jovem é levado num carro puxado por éguas, guiado pelas filhas do Sol, até os portões da Noite e do Dia, guardados pela Justiça (Díke). Lá dentro, uma deusa sem nome o recebe e anuncia o programa:

É preciso que de tudo te instruas: tanto do coração inabalável da verdade bem redonda quanto das opiniões dos mortais, nas quais não há fé verdadeira. Parmênides, DK 28 B1, 28–30

Daí as duas partes do poema: a Verdade (alétheia), que chegou quase completa, e a Opinião (dóxa), uma cosmologia de que restam poucos fragmentos. Não é o poeta quem argumenta: é a deusa. Mas ela não pede fé — pede que o jovem «julgue pela razão (lógos) a refutação muito disputada» (B7).

§ 5 · Os caminhos

«É» ou «não é»

Os únicos caminhos de investigação que se podem pensar: um, que é e que não é possível não ser — é o caminho da Persuasão, pois acompanha a Verdade; o outro, que não é e que é necessário não ser — este, te digo, é uma trilha inteiramente impossível de conhecer. Pois não conhecerias o que não é (isso não se pode fazer), nem o dirias. Parmênides, DK 28 B2

A escolha parece óbvia, e é aí que está a força do argumento. Para investigar, é preciso investigar alguma coisa. O «não é», tomado a sério, não oferece nada para ser conhecido nem dito. Daí a frase mais comentada do poema:

… pois o mesmo é pensar e ser. Parmênides, DK 28 B3

Não quer dizer que o mundo seja feito de pensamento. Quer dizer que pensar é sempre pensar o que é: um pensamento sobre o nada absoluto não tem conteúdo, logo não é pensamento. Ser e pensável andam juntos.

§ 6 · Os sinais do ser

Ingênito, uno, contínuo, imóvel

Escolhido o caminho do «é», o fragmento B8 deduz, um por um, os sinais (sémata) do que é. O ser é:

  • ingênito e imperecível — não nasceu e não morre;
  • presente — «nunca foi nem será, pois é agora, todo junto»;
  • uno e contínuo — não tem partes separadas por algo que não seja ser;
  • imóvel — preso nos limites de grandes laços, pela Necessidade (Anánke);
  • acabado — «semelhante à massa de uma esfera bem redonda, igual a partir do centro em todas as direções».
Pois que origem buscarias para ele? Como e de onde teria crescido? Do que não é, não te permitirei dizê-lo nem pensá-lo, pois não é dizível nem pensável que não seja. E que necessidade o teria levado a surgir depois, e não antes, se partisse do nada? Parmênides, DK 28 B8, 6–10

O argumento é sempre o mesmo, aplicado a cada caso. Nascer seria passar do não-ser ao ser; perecer, do ser ao não-ser; mover-se, ir para onde ainda não se está; dividir-se, ter entre as partes um vazio, que é não-ser. Como o não-ser não é, nada disso pode acontecer. O que os sentidos mostram — nascimento, morte, movimento, pluralidade — é nome que os mortais deram, «confiando que fosse verdadeiro» (B8, 38–39).

§ 7 · Depois de Parmênides

Como devolver o movimento ao mundo

Depois do poema, ninguém pôde mais dizer simplesmente que «as coisas nascem da água» ou «do ar» sem responder à pergunta: como algo vem a ser, se não pode vir do nada? A história da filosofia grega seguinte é, em boa parte, uma série de respostas:

  • Zenão de Eleia, discípulo, defendeu o mestre com os paradoxos — Aquiles nunca alcança a tartaruga —, mostrando que quem aceita movimento e pluralidade cai em contradições piores.
  • Empédocles e Anaxágoras aceitaram que nada nasce nem morre: o que chamamos de nascer é mistura e separação de elementos que sempre existiram.
  • Leucipo e Demócrito deram ao não-ser um lugar: o vazio, onde os átomos — cada um com os sinais do ser de Parmênides — se movem.
  • Platão, no Sofista, comete o que ele mesmo chama de «parricídio»: mostra que o não-ser, num sentido, é — como diferença. «Não ser X» é ser outro que X.
  • Aristóteles resolve pela distinção entre ato e potência: a semente não vem do nada absoluto, mas do que já é árvore em potência.

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima — as quatro primeiras sobre metafísica, as seis seguintes sobre Parmênides. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.

1 Qual é a origem histórica da palavra «metafísica»?

O nome vem da edição de Andrônico (séc. I a.C.): ta metà ta physiká, os livros depois dos da natureza. Aristóteles dizia «filosofia primeira», «sabedoria» ou «teologia»; a leitura «além da natureza» é posterior.

2 Para Aristóteles (Metafísica IV, 1), a filosofia primeira se distingue das ciências particulares porque:

Cada ciência particular recorta um gênero de entes sob um aspecto (enquanto vivo, enquanto quantidade…). A filosofia primeira pergunta o que pertence a tudo o que é, só por ser.

3 A tese aristotélica de que «o ente se diz de muitos modos» significa que:

É o caso de «saudável»: sentidos diferentes, todos ligados à saúde. Os sentidos de «ser» (qualidade, quantidade, lugar…) se organizam em torno da ousía. A alternativa d se aproxima de Parmênides, não de Aristóteles.

4 Qual destas perguntas é tipicamente metafísica?

Identidade ao longo da mudança é um problema metafísico clássico: nenhum experimento o resolve sozinho. As outras são perguntas da química, da produção textual e da história.

5 Sobre a forma do texto de Parmênides, é correto afirmar:

O poema usa o metro épico e tem proêmio, Verdade e Opinião. O diálogo com Sócrates é a obra de Platão chamada Parmênides; os aforismos lembram Heráclito.

6 No fragmento B2, o caminho do «não é» é rejeitado porque:

«Pois não conhecerias o que não é, nem o dirias.» O argumento é racional, não sensorial — Parmênides, aliás, desconfia dos sentidos (B7).

7 A frase «o mesmo é pensar e ser» (B3) é mais bem interpretada como:

A frase liga o pensável ao que é. Lê-la como idealismo (b) é anacronismo: a tese não diz que o ser depende da mente.

8 Qual das características abaixo não está entre os sinais do ser no fragmento B8?

Pluralidade e transformação são exatamente o que B8 nega: exigiriam não-ser entre as partes ou entre os momentos.

9 O argumento de Parmênides contra o nascimento do ser é que:

B8, 6–10: «De onde teria crescido? Do que não é, não te permitirei dizê-lo nem pensá-lo.» Soma-se o argumento da razão suficiente: por que naquele momento e não em outro?

10 No Sofista, Platão fala em cometer um «parricídio» contra Parmênides. Isso porque:

«Não ser X» passa a significar «ser outro que X». Com isso Platão contraria a proibição do pai Parmênides de dizer que o não-ser é. Zenão, ao contrário, defendeu o mestre.