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Segundo período · 08 · Ficha de estudo

A teoria política de Thomas Hobbes

Ele dizia que sua mãe deu à luz gêmeos: ele e o medo. Hobbes viu a Inglaterra se despedaçar numa guerra civil e escreveu o livro que tenta provar, como quem demonstra um teorema, uma coisa só: sem um poder comum que mantenha todos em respeito, a vida humana é insuportável.

  1. 1588Nasce em Malmesbury, prematuro, no ano em que a Invencível Armada ameaça a Inglaterra.
  2. 1629Publica sua tradução de Tucídides e descobre os Elementos de Euclides.
  3. 1640Às vésperas da guerra civil, foge para Paris, onde fica onze anos.
  4. 1642Publica Do cidadão. Começa a guerra entre o rei e o Parlamento.
  5. 1649 · 1651Carlos I é decapitado. Dois anos depois sai o Leviatã, e Hobbes volta à Inglaterra.
  6. 1679Morre aos 91 anos, depois de décadas acusado de ateísmo.

§ 1 · Contexto e método

Política como geometria

Entre 1642 e 1651 a Inglaterra vive uma guerra civil entre o rei Carlos I e o Parlamento, misturada a conflitos religiosos entre anglicanos, puritanos e católicos. Termina com o rei decapitado e uma república dirigida por Cromwell. Hobbes conclui que a causa da guerra é intelectual: cada facção acreditava ter o direito de decidir, por conta própria, o que é justo — e de pegar em armas por isso.

A saída que ele propõe é um método. Hobbes ficou fascinado pela geometria de Euclides, em que se parte de definições simples e se chega a conclusões que ninguém pode recusar. E é mecanicista: tudo é corpo em movimento, inclusive o ser humano. Ele quer fazer com a política o que Galileu fez com a física.

O procedimento é chamado de resolutivo-compositivo: desmontar o Estado em suas peças — os indivíduos e suas paixões — e depois remontá-lo, mostrando por que ele precisa ter a forma que tem.

§ 2 · Leviatã, XI e XIII

Iguais, e por isso perigosos

A primeira peça é a natureza humana. Somos movidos por desejos, e o desejo nunca para: Hobbes aponta como inclinação geral da humanidade «um desejo perpétuo e incessante de poder após poder, que só cessa com a morte» (XI). Não porque todos sejam gananciosos, mas porque ninguém consegue garantir o que já tem sem adquirir mais.

A segunda peça é surpreendente: os homens são iguais por natureza. Não exatamente iguais em força ou inteligência, mas iguais o bastante para que o mais fraco possa matar o mais forte, por astúcia ou aliando-se a outros (XIII). Da igualdade de capacidade nasce a igualdade de esperança — e, quando dois querem a mesma coisa que não podem ter juntos, tornam-se inimigos.

§ 3 · Leviatã, XIII

O estado de natureza

Imagine os homens sem nenhum poder comum acima deles. O resultado é uma condição de guerra de todos contra todos. E guerra, avisa Hobbes, não é só a batalha: é a disposição conhecida para lutar, assim como o mau tempo não é uma chuva, mas a tendência a chover por vários dias.

Não há lugar para a indústria, porque o seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem artes, nem letras, nem sociedade; e, o que é pior, um medo contínuo e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta. Hobbes, Leviatã, XIII

Nessa condição nada pode ser injusto. Justo e injusto só existem onde há lei, e só há lei onde há um poder comum. Não existe propriedade, nem «meu» e «teu»: cada um tem o que consegue pegar, pelo tempo que consegue mantê-lo.

§ 4 · Leviatã, XIV–XV

Direito de natureza e leis de natureza

Hobbes separa duas noções que a tradição confundia. O direito de natureza (jus naturale) é a liberdade de cada um usar seu poder como quiser para preservar a própria vida — no estado de natureza, um direito a todas as coisas, até ao corpo dos outros. A lei de natureza (lex naturalis) é um preceito da razão que proíbe fazer o que destrói a própria vida. Direito é liberdade; lei é obrigação.

As três primeiras leis de natureza montam o argumento inteiro:

1. Procurar a paz enquanto houver esperança de obtê-la; quando não houver, usar todos os recursos da guerra.
2. Renunciar ao direito a todas as coisas, desde que os outros também renunciem, contentando-se com tanta liberdade em relação aos outros quanto se permite aos outros em relação a si.
3. Cumprir os pactos celebrados (XV). É daqui que nasce a justiça: injustiça é simplesmente não cumprir um pacto.

§ 5 · Leviatã, XVI–XIX

O contrato e o soberano

A única maneira de criar esse poder é cada um transferir sua força e seu direito a um homem ou a uma assembleia, que passa a representar a vontade de todos. É como se cada um dissesse a cada um:

Autorizo e transfiro o meu direito de me governar a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de que transfiras a ele o teu direito, e autorizes todas as suas ações da mesma maneira. Hobbes, Leviatã, XVII

Assim nasce o Leviatã, aquele «deus mortal» a quem devemos, abaixo do Deus imortal, a paz e a defesa. Quem recebe esse poder é o soberano; todos os outros são seus súditos. Os súditos são os autores das ações do soberano, que é o ator que age em nome deles (XVI).

A soberania pode estar com um (monarquia), com alguns (aristocracia) ou com todos (democracia). Hobbes acha a monarquia mais conveniente (XIX), mas o ponto não é esse: em qualquer forma, o poder soberano precisa ser absoluto. Dividir a soberania entre rei e Parlamento foi exatamente o que levou à guerra.

§ 6 · Leviatã, XXI

A liberdade dos súditos

Para Hobbes, liberdade é simplesmente ausência de impedimentos externos ao movimento. Um homem livre é aquele que não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer. Por isso liberdade e medo são compatíveis: quem joga a carga ao mar por medo de afundar age livremente.

Na vida civil, a liberdade dos súditos está no silêncio da lei: comprar e vender, escolher onde morar, o que comer, que ofício ter, como educar os filhos — tudo o que o soberano não regulou.

Repare na ironia: o Estado mais absoluto da teoria política moderna é construído inteiramente a partir do indivíduo e do seu direito à vida. É por isso que Hobbes, sem ser liberal, é considerado um dos pais do liberalismo.

§ 7 · Imagem e recepção

O gigante feito de gente

O frontispício da primeira edição, gravado por Abraham Bosse, é das imagens mais famosas da filosofia: um rei gigante, com espada numa mão e báculo de bispo na outra, ergue-se sobre uma cidade. Olhando de perto, o corpo dele é formado por centenas de pessoas pequenas, todas voltadas para a cabeça. No alto, a frase do livro de Jó: «não há poder sobre a terra que se compare a ele».

Quase todos os contratualistas posteriores escrevem contra ele. Locke mantém o contrato mas limita o governo e defende o direito de resistência. Rousseau, na bibliografia complementar, acusa Hobbes de projetar no estado de natureza o homem já corrompido pela sociedade: a guerra de todos contra todos seria um retrato do homem civil, não do natural.

Exercício

Questionário

Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.

1 Que modelo de conhecimento Hobbes quer aplicar à política?

Hobbes se encanta com Euclides e quer uma ciência política demonstrativa. Somado ao mecanicismo (tudo é corpo em movimento), isso dá o método resolutivo-compositivo: desmontar o Estado em indivíduos e remontá-lo.

2 Por que, para Hobbes, a igualdade natural entre os homens é perigosa?

Ninguém é forte o bastante para estar seguro (XIII). Quando dois desejam a mesma coisa e não podem tê-la juntos, tornam-se inimigos — e nenhum dos dois tem garantia de vencer.

3 Quais são as três causas principais de discórdia apontadas no capítulo XIII?

A competição leva a atacar por lucro; a desconfiança, por segurança; a glória, por reputação. A desconfiança é a mais grave: até o pacífico tem motivo para atacar primeiro.

4 O que Hobbes quer dizer quando compara a guerra ao mau tempo?

Assim como o mau tempo não é uma chuva, mas a tendência a chover por dias, a guerra é todo o tempo em que não há garantia do contrário. E o Estado existe justamente para acabar com ela.

5 No estado de natureza, segundo Hobbes:

Sem lei não há injustiça, e sem poder comum não há lei. Também não há «meu» e «teu». A compaixão natural é Rousseau; a propriedade anterior ao Estado é Locke; a vantagem do mais forte é Trasímaco.

6 Qual a diferença entre direito de natureza e lei de natureza?

Direito é liberdade, lei é obrigação (XIV). Hobbes insiste em separar as duas noções, que a tradição confundia.

7 Qual é a primeira lei de natureza?

Cumprir os pactos é a terceira lei (XV), de onde nasce a justiça. A segunda é renunciar ao direito a todas as coisas, desde que os outros também renunciem.

8 O que significa a frase «pactos sem a espada não passam de palavras»?

As leis de natureza obrigam a consciência, mas quem cumpre sozinho vira presa (XVII). Só um poder comum torna seguro cumprir o que se prometeu.

9 Por que o soberano hobbesiano não pode ser acusado de quebrar o contrato?

É o ponto mais engenhoso do argumento (XVIII). Os súditos transferem seus direitos ao soberano, mas ele não promete nada a ninguém — logo não há o que violar.

10 Sobre as formas de governo, Hobbes sustenta que:

Hobbes prefere a monarquia por conveniência (XIX), mas admite as três formas. O que não admite é dividir a soberania — foi isso que levou à guerra civil inglesa.

11 Em que caso o súdito pode legitimamente resistir ao soberano?

Entrou-se no Estado para preservar a vida, então esse direito não se transfere (XXI). E a obediência dura só enquanto o soberano for capaz de proteger.

12 No frontispício do Leviatã, o corpo do gigante é formado por centenas de pessoas. O que isso representa?

O Estado é um «homem artificial» composto pelos súditos. A espada e o báculo nas mãos mostram o poder civil e o religioso reunidos no mesmo soberano.