Ele dizia que sua mãe deu à luz gêmeos: ele e o medo. Hobbes viu a Inglaterra se despedaçar numa
guerra civil e escreveu o livro que tenta provar, como quem demonstra um teorema, uma coisa só:
sem um poder comum que mantenha todos em respeito, a vida humana é insuportável.
1588Nasce em Malmesbury, prematuro, no ano em que a Invencível Armada ameaça a Inglaterra.
1629Publica sua tradução de Tucídides e descobre os Elementos de Euclides.
1640Às vésperas da guerra civil, foge para Paris, onde fica onze anos.
1642Publica Do cidadão. Começa a guerra entre o rei e o Parlamento.
1649 · 1651Carlos I é decapitado. Dois anos depois sai o Leviatã, e Hobbes volta à Inglaterra.
1679Morre aos 91 anos, depois de décadas acusado de ateísmo.
§ 1 · Contexto e método
Política como geometria
Entre 1642 e 1651 a Inglaterra vive uma guerra civil entre o rei Carlos I e o Parlamento, misturada a
conflitos religiosos entre anglicanos, puritanos e católicos. Termina com o rei decapitado e uma república
dirigida por Cromwell. Hobbes conclui que a causa da guerra é intelectual: cada facção acreditava ter o direito
de decidir, por conta própria, o que é justo — e de pegar em armas por isso.
A saída que ele propõe é um método. Hobbes ficou fascinado pela geometria de Euclides, em que se parte de
definições simples e se chega a conclusões que ninguém pode recusar. E é mecanicista: tudo é corpo em movimento,
inclusive o ser humano. Ele quer fazer com a política o que Galileu fez com a física.
O procedimento é chamado de resolutivo-compositivo: desmontar o Estado
em suas peças — os indivíduos e suas paixões — e depois remontá-lo, mostrando por que ele precisa
ter a forma que tem.
§ 2 · Leviatã, XI e XIII
Iguais, e por isso perigosos
A primeira peça é a natureza humana. Somos movidos por desejos, e o desejo nunca para: Hobbes aponta como
inclinação geral da humanidade «um desejo perpétuo e incessante de poder após poder, que só cessa com a morte» (XI).
Não porque todos sejam gananciosos, mas porque ninguém consegue garantir o que já tem sem adquirir mais.
A segunda peça é surpreendente: os homens são iguais por natureza. Não exatamente iguais
em força ou inteligência, mas iguais o bastante para que o mais fraco possa matar o mais forte, por astúcia ou
aliando-se a outros (XIII). Da igualdade de capacidade nasce a igualdade de esperança — e, quando dois querem a
mesma coisa que não podem ter juntos, tornam-se inimigos.
§ 3 · Leviatã, XIII
O estado de natureza
Imagine os homens sem nenhum poder comum acima deles. O resultado é uma condição de
guerra de todos contra todos. E guerra, avisa Hobbes, não é só a batalha:
é a disposição conhecida para lutar, assim como o mau tempo não é uma chuva, mas a tendência a chover por vários dias.
Não há lugar para a indústria, porque o seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra,
nem navegação, nem artes, nem letras, nem sociedade; e, o que é pior, um medo contínuo e perigo de morte violenta.
E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.
Hobbes, Leviatã, XIII
Nessa condição nada pode ser injusto. Justo e injusto só existem onde há lei, e só há lei
onde há um poder comum. Não existe propriedade, nem «meu» e «teu»: cada um tem o que consegue pegar, pelo tempo
que consegue mantê-lo.
§ 4 · Leviatã, XIV–XV
Direito de natureza e leis de natureza
Hobbes separa duas noções que a tradição confundia. O direito de natureza
(jus naturale) é a liberdade de cada um usar seu poder como quiser para preservar a própria vida —
no estado de natureza, um direito a todas as coisas, até ao corpo dos outros. A lei de natureza
(lex naturalis) é um preceito da razão que proíbe fazer o que destrói a própria vida. Direito é liberdade; lei é obrigação.
As três primeiras leis de natureza montam o argumento inteiro:
1. Procurar a paz enquanto houver esperança de obtê-la; quando não houver, usar todos os recursos da guerra. 2. Renunciar ao direito a todas as coisas, desde que os outros também renunciem, contentando-se com tanta
liberdade em relação aos outros quanto se permite aos outros em relação a si. 3. Cumprir os pactos celebrados (XV). É daqui que nasce a justiça: injustiça é simplesmente não cumprir um pacto.
§ 5 · Leviatã, XVI–XIX
O contrato e o soberano
A única maneira de criar esse poder é cada um transferir sua força e seu direito a um homem ou a uma assembleia,
que passa a representar a vontade de todos. É como se cada um dissesse a cada um:
Autorizo e transfiro o meu direito de me governar a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens,
com a condição de que transfiras a ele o teu direito, e autorizes todas as suas ações da mesma maneira.
Hobbes, Leviatã, XVII
Assim nasce o Leviatã, aquele «deus mortal» a quem devemos, abaixo do Deus imortal, a paz e a defesa.
Quem recebe esse poder é o soberano; todos os outros são seus súditos.
Os súditos são os autores das ações do soberano, que é o ator que age em nome deles (XVI).
A soberania pode estar com um (monarquia), com alguns (aristocracia) ou com todos (democracia). Hobbes acha a
monarquia mais conveniente (XIX), mas o ponto não é esse: em qualquer forma, o poder soberano precisa ser
absoluto. Dividir a soberania entre rei e Parlamento foi exatamente o que levou à guerra.
§ 6 · Leviatã, XXI
A liberdade dos súditos
Para Hobbes, liberdade é simplesmente ausência de impedimentos externos ao movimento.
Um homem livre é aquele que não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer. Por isso liberdade e medo são
compatíveis: quem joga a carga ao mar por medo de afundar age livremente.
Na vida civil, a liberdade dos súditos está no silêncio da lei: comprar e vender, escolher onde morar,
o que comer, que ofício ter, como educar os filhos — tudo o que o soberano não regulou.
Repare na ironia: o Estado mais absoluto da teoria política moderna é construído inteiramente a partir do
indivíduo e do seu direito à vida. É por isso que Hobbes, sem ser liberal, é considerado um dos pais do liberalismo.
§ 7 · Imagem e recepção
O gigante feito de gente
O frontispício da primeira edição, gravado por Abraham Bosse, é das imagens mais famosas da filosofia: um rei gigante,
com espada numa mão e báculo de bispo na outra, ergue-se sobre uma cidade. Olhando de perto, o corpo dele é formado por
centenas de pessoas pequenas, todas voltadas para a cabeça. No alto, a frase do livro de Jó: «não há poder sobre a terra
que se compare a ele».
Quase todos os contratualistas posteriores escrevem contra ele. Locke mantém o contrato mas limita o
governo e defende o direito de resistência. Rousseau, na bibliografia complementar, acusa Hobbes de
projetar no estado de natureza o homem já corrompido pela sociedade: a guerra de todos contra todos seria um retrato
do homem civil, não do natural.
Exercício
Questionário
Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em
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