Segundo período · 07 · Período clássico · 469 — 399 a.C.
Sócrates de Atenas
Não escreveu uma linha, não fundou escola, não cobrou de ninguém — e a história da filosofia
se divide entre antes e depois dele. Sócrates troca a pergunta pela natureza pela pergunta pelo
ser humano: como se deve viver?
469 a.C.Nasce em Atenas. O pai, Sofronisco, era escultor; a mãe, Fenárete, parteira.
432–422 a.C.Serve como hoplita na Guerra do Peloponeso: Potideia, Délio e Anfípolis.
423 a.C.Aristófanes o põe em cena em As Nuvens, como um sofista que vive nas nuvens.
406 e 404 a.C.Enfrenta a assembleia no caso das Arginusas e recusa a ordem dos Trinta de prender Leão de Salamina.
399 a.C.Acusado de impiedade e de corromper a juventude, é condenado e bebe a cicuta.
Sócrates não deixou nada escrito. O que sabemos vem de quatro testemunhas, e elas não concordam.
Aristófanes faz dele um sofista ridículo, pendurado num cesto para estudar o céu.
Xenofonte o mostra como um homem piedoso e de bons conselhos práticos.
Platão o transforma no personagem principal de quase todos os seus diálogos.
E Aristóteles, que não o conheceu, resume em uma linha o que ele trouxe de novo.
Duas coisas podem ser atribuídas com justiça a Sócrates: os argumentos indutivos e a definição universal.
Aristóteles, Metafísica XIII, 4, 1078b27
§ 2 · Delfos
Ninguém é mais sábio
Na Apologia, Sócrates conta que seu amigo Querefonte perguntou ao oráculo de Delfos se havia
alguém mais sábio do que ele. A sacerdotisa respondeu que não. Sócrates, que não se achava sábio em nada,
decide verificar: vai aos políticos, aos poetas, aos artesãos. Todos julgam saber o que não sabem.
A conclusão é a famosa douta ignorância: ele e os outros são igualmente ignorantes
das coisas mais importantes, mas os outros pensam que sabem, e ele não pensa. Por esse pouco ele é mais sábio
(21d). A sabedoria humana vale pouco ou nada — e reconhecer isso é o começo.
§ 3 · Método
«O que é?»
A pergunta típica de Sócrates é o que é X? — o que é a piedade (Eutífron), a coragem
(Laques), a virtude (Mênon). O interlocutor quase sempre responde com um exemplo:
«coragem é não fugir da batalha». Sócrates recusa: ele não quer um caso de coragem, quer aquilo que faz
de todos os casos casos de coragem. É a busca da definição universal.
Daí vem o élenchos, a refutação. Sócrates aceita a definição proposta, pergunta
outras coisas em que o interlocutor também acredita e mostra que elas contradizem a definição. Alguém
tem de ceder. A ironia é a postura de quem finge não saber para deixar o outro
afirmar; e o diálogo muitas vezes termina em aporia, um impasse sem resposta.
A outra metade é a maiêutica, arte do parto. No Teeteto (149a–151d),
Sócrates diz que faz com as almas o que a mãe fazia com os corpos: ele mesmo é estéril de sabedoria, mas
ajuda os outros a dar à luz as ideias que trazem dentro de si — e a reconhecer quais nasceram mortas.
§ 4 · Ética
Cuidar da alma
O que Sócrates pede aos atenienses é que se preocupem menos com dinheiro, fama e honras, e mais com a
própria alma — que ela seja a melhor possível (Apologia 29d–30b).
Uma vida sem exame não vale a pena ser vivida pelo ser humano.
Platão, Apologia de Sócrates, 38a
Daí o intelectualismo moral: a virtude é conhecimento. Quem sabe de verdade o que
é bom faz o bem; ninguém erra voluntariamente (Protágoras 358c). O mal é ignorância, e a virtude
pode ser ensinada. Uma consequência difícil, defendida no Górgias (469c): é melhor sofrer uma
injustiça do que cometê-la, porque quem a comete estraga a própria alma.
§ 5 · 399 a.C.
O julgamento
Meleto, Ânito e Lícon o acusam de não reconhecer os deuses da cidade, introduzir novas divindades
e corromper a juventude. Por trás está a política: Atenas acabara de sair da tirania dos Trinta,
e Crítias, um dos tiranos, e Alcibíades, que traíra a cidade, tinham andado com Sócrates.
Diante de cerca de 500 juízes, ele não chora nem traz os filhos para comover; examina o acusador.
É condenado por pouca diferença — «se trinta votos tivessem mudado, eu estaria absolvido» (36a).
Chamado a propor a própria pena, sugere ser sustentado pela cidade no Pritaneu, como os heróis olímpicos.
A segunda votação, pela morte, tem margem maior.
No Críton, os amigos preparam a fuga. Sócrates recusa: imagina as Leis de Atenas
falando com ele — elas o criaram e educaram, ele aceitou viver sob elas por setenta anos, e fugir agora
seria destruí-las. No Fédon, bebe a cicuta conversando sobre a imortalidade da alma.
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das
questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.