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Segundo período · 07 · Pré-socráticos · c. 460 — c. 370 a.C.

Demócrito de Abdera

O último dos pré-socráticos é, na verdade, contemporâneo de Sócrates. Com seu mestre Leucipo, propõe a resposta mais engenhosa ao impasse entre Heráclito e Parmênides: na realidade, só existem átomos e vazio.

  1. c. 460 a.C.Nasce em Abdera, na Trácia. Discípulo de Leucipo, o fundador do atomismo.
  2. séc. V a.C.Viagens ao Egito e ao Oriente, segundo a tradição. «Vim a Atenas e ninguém me conheceu» (B116).
  3. séc. V–IV a.C.Escreve dezenas de obras sobre física, ética, matemática e música. Trasilo cataloga cerca de setenta títulos — todos perdidos.
  4. c. 370 a.C.Morre já muito idoso; a tradição fala em mais de cem anos.
  5. 306 a.C.Epicuro funda o Jardim em Atenas e retoma o atomismo. Lucrécio o leva a Roma no séc. I a.C.

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§ 1 · O problema

Responder a Parmênides

Parmênides tinha fechado uma porta: o ser é, o não-ser não é. Se não existe o não-ser, não existe o vazio; sem vazio, nada tem para onde se mover; logo, o movimento e a pluralidade que vemos são ilusão. O argumento é rigoroso, e todo filósofo depois dele precisa enfrentá-lo.

Leucipo e seu discípulo Demócrito aceitam quase tudo e mudam um ponto só. Sim, o ser é pleno, eterno, imutável, não nasce nem morre. Mas não é um só: são infinitos pedaços de ser. E o não-ser — o vazio — também existe: «o nada não existe menos do que o algo» (B156).

§ 2 · A tese

Átomos e vazio

Átomo vem de a- (não) e témnein (cortar): o que não pode ser cortado, o indivisível. Os átomos são sólidos, pequenos demais para serem vistos, infinitos em número e eternos. Não têm cor, cheiro, sabor nem temperatura. Movem-se desde sempre no vazio, chocam-se, ricocheteiam e se engancham uns nos outros.

Diferem entre si só de três modos, que Aristóteles explica com letras (Metafísica I, 4):

Forma: A difere de N. · Ordem: AN difere de NA. · Posição: Z difere de N (é o mesmo traço deitado).

Como as letras compõem tragédias e comédias, os átomos compõem tudo. Nascer é átomos se juntarem; morrer é se separarem. Nada vem do nada, nada vai para o nada — Parmênides é respeitado —, e mesmo assim o mundo muda o tempo todo — Heráclito também.

Como o vazio é infinito e os átomos também, há infinitos mundos: uns nascendo, outros morrendo, alguns sem sol nem lua, outros com vários.

§ 3 · Causa

Necessidade, sem finalidade

Nada acontece ao acaso, mas tudo por uma razão e por necessidade. Leucipo, DK 67 B2

Tudo o que acontece é efeito de choques anteriores de átomos. Não há uma inteligência que organize o cosmos, nem um para quê: os olhos não foram feitos para ver; formaram-se, e vemos. É uma explicação mecanicista.

§ 4 · Conhecer

Doce por convenção

Por convenção o doce, por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade, átomos e vazio. Demócrito, DK 68 B9 / B125

Se os átomos não têm sabor nem cor, de onde vem o doce? Do encontro dos átomos da coisa com os átomos do nosso corpo: átomos redondos e lisos dão gosto doce; os pontiagudos, amargo. As qualidades sensíveis existem por convenção (nómos), na relação conosco; só átomos e vazio existem na realidade (eteé). Galileu e Locke chamarão isso de qualidades secundárias.

Daí duas formas de conhecimento (B11): a bastarda — vista, audição, olfato, paladar, tato — e a legítima, a do intelecto, que alcança o que é pequeno demais para os sentidos.

§ 5 · Viver

O filósofo que ri

A maior parte dos fragmentos que restam de Demócrito é de ética. O bem é a euthymía, o bom ânimo: uma alma serena, sem grandes agitações, nem por medo nem por desejo. Chega-se a ela pela moderação: «quem quer viver com bom ânimo não deve fazer muitas coisas, nem em particular nem em público» (B3).

A alma também é feita de átomos — finos, esféricos, como os do fogo — espalhados pelo corpo. Na morte, eles se dispersam. Não há o que temer depois.

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.

1 A palavra átomo significa:

A- (não) + témnein (cortar). Os átomos são também pequenos, invisíveis e eternos, mas o nome vem da indivisibilidade.

2 Segundo Demócrito, o que existe na realidade?

«Na realidade, átomos e vazio» (B9). Os quatro elementos são de Empédocles; o fogo, de Heráclito; as Ideias, de Platão.

3 Para responder a Parmênides, os atomistas precisaram admitir:

Parmênides negava o vazio e, com ele, o movimento. Leucipo e Demócrito afirmam o vazio: «o nada não existe menos do que o algo».

4 Segundo a explicação de Aristóteles com letras, os átomos diferem entre si por:

A difere de N pela forma; AN de NA pela ordem; Z de N pela posição. Cor e sabor não existem nos átomos.

5 O fragmento «por convenção o doce, por convenção o amargo… na realidade, átomos e vazio» quer dizer que:

As qualidades têm causa — a forma dos átomos agindo sobre o corpo —, mas só existem na relação conosco. É a origem da distinção moderna entre qualidades primárias e secundárias.

6 Demócrito distingue duas formas de conhecimento:

B11: a bastarda vem dos sentidos; a legítima, do intelecto, que alcança o que é pequeno demais para ser percebido. Mas ele reconhece que o intelecto parte dos sentidos (B125).

7 Para o atomismo, nascer e morrer são:

Nada vem do nada nem vai para o nada. Os átomos são eternos; só suas combinações começam e acabam. Condensação e rarefação são de Anaxímenes.

8 «Nada acontece ao acaso, mas tudo por uma razão e por necessidade» (Leucipo) expressa uma visão:

Os acontecimentos são efeito necessário dos movimentos dos átomos. É exatamente a ausência de causa final que Aristóteles critica.

9 O ideal ético de Demócrito é a euthymía, que significa:

Alma tranquila, sem agitações de medo ou desejo, alcançada evitando os excessos (B3). Antecipa a ataraxia de Epicuro.

10 Qual filósofo helenístico retomou o atomismo de Demócrito?

Epicuro adota átomos e vazio e usa a física para livrar o ser humano do medo da morte e dos deuses. Lucrécio o divulga em Roma no poema Da natureza das coisas.