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Primeiro período · Éticas · Immanuel Kant · 1724 — 1804

Ética de Kant

O que torna uma ação moralmente boa? Boa vontade, dever, universalização, dignidade e autonomia: oito seções de estudo e 10 questões com explicações ao final.

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§ 1 · O valor moral

A boa vontade

Na Fundamentação da metafísica dos costumes, Kant começa pela boa vontade: talentos, coragem e riqueza podem servir a fins injustos. Seu valor depende do uso que fazemos deles. A boa vontade, ao contrário, tem valor em si, e não apenas pelos resultados alcançados (AA 4:393–394).

Isso não significa que qualquer intenção bem apresentada seja moralmente boa. É preciso examinar o princípio que orienta a ação. Mesmo quando obstáculos impedem o resultado esperado, uma vontade orientada pelo dever não perde por isso seu valor.

§ 2 · O motivo da ação

Agir conforme o dever e agir por dever

Uma ação pode estar conforme o dever e ser praticada por interesse. Kant exemplifica com um comerciante que cobra preços honestos para preservar a clientela. Para ter valor moral, a ação deve ser realizada por dever, por respeito à lei moral, e não apenas pela vantagem esperada (AA 4:397–400).

Gostar de ajudar alguém não torna a ajuda errada. A presença de um sentimento favorável, porém, não basta para mostrar o valor moral da ação. A questão é se o reconhecimento do dever orienta a vontade, inclusive quando agir bem contraria um interesse.

§ 3 · As exigências da razão

Imperativos hipotéticos e categórico

Um imperativo hipotético exige uma ação como meio para um fim desejado: se você quer aprender um idioma, deve praticá-lo. A exigência depende desse objetivo.

O imperativo categórico apresenta uma exigência moral que não depende de um desejo particular. Sua validade não se limita a quem espera uma recompensa ou quer alcançar certo resultado (AA 4:414–420).

§ 4 · O teste da ação

Máximas e lei universal

A máxima é o princípio subjetivo segundo o qual alguém age: o que pretende fazer, em quais circunstâncias e para qual fim. A formulação da lei universal pede examinar se essa máxima pode ser coerentemente querida como uma regra válida para todos (AA 4:400–403; 421).

Kant considera a falsa promessa feita para conseguir dinheiro. Universalizar a prática de prometer sem intenção de cumprir destruiria a confiança da qual essa própria estratégia depende (AA 4:422). O problema não se reduz a calcular quantas pessoas ficariam insatisfeitas.

§ 5 · O respeito às pessoas

Humanidade como fim e dignidade

Na formulação da humanidade, Kant exige respeitar a natureza racional, em si e nos outros, como um fim. Não se deve tratar uma pessoa meramente como meio para um objetivo (AA 4:428–429).

A palavra «meramente» importa: cooperar e receber serviços não são, por si, violações. Enganar alguém para obter sua colaboração impede que essa pessoa avalie e participe da decisão. A exigência moral inclui respeito à sua capacidade de escolher.

A dignidade indica um valor que não pode ser trocado por um equivalente como se fosse um preço. Ela se relaciona à capacidade racional de participar da legislação moral (AA 4:434–436).

§ 6 · A origem da obrigação

Autonomia e heteronomia

Autonomia é a vontade racional reconhecer-se como autora de uma legislação moral universal. Não é criar uma regra conveniente só para si nem fazer tudo o que se deseja (AA 4:440).

Há heteronomia quando a determinação moral da vontade é buscada em um fundamento externo à sua legislação racional, como a recompensa desejada ou a felicidade tomada como condição da obrigação (AA 4:441–444).

O reino dos fins expressa a ideia de uma comunidade de seres racionais que se respeitam como fins e participam de leis comuns (AA 4:433–434). A autonomia exige reciprocidade, não privilégio pessoal.

§ 7 · O que devemos fazer

Deveres perfeitos e imperfeitos

Os exemplos da Fundamentação distinguem deveres perfeitos, como a proibição da falsa promessa, e deveres imperfeitos, como desenvolver capacidades e ajudar outras pessoas (AA 4:421–424).

Um dever imperfeito permite latitude na forma e nas ocasiões de realizá-lo; não se torna facultativo. Você pode escolher diferentes maneiras de ajudar, mas isso não equivale a adotar a regra de nunca se importar com ninguém.

Na Metafísica dos costumes, Kant apresenta a própria perfeição e a felicidade dos outros como fins que também são deveres (AA 6:385–388). A ética inclui cultivar capacidades e promover o bem alheio.

§ 8 · A possibilidade de agir moralmente

Liberdade e felicidade

Na terceira seção da Fundamentação, Kant relaciona liberdade e autonomia. Agir racionalmente exige considerar-se capaz de orientar a vontade por razões, e não apenas como efeito de impulsos. Isso não equivale a uma demonstração teórica de que a liberdade possa ser observada como um objeto da natureza (AA 4:446–455).

A felicidade pessoal é um fim que desejamos, mas não fornece a base universal do dever. Isso não exige procurar a infelicidade nem eliminar os sentimentos: exige que uma vantagem esperada não decida se devemos respeitar a lei moral.

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre a ética de Kant. Marque uma alternativa em cada questão e clique em Corrigir. Ao final aparecem a nota, as questões certas, erradas e em branco, além do gabarito comentado. Use Refazer para tentar novamente.

1 Por que a boa vontade ocupa o início da ética kantiana?

Kant distingue o valor da vontade do êxito obtido e das capacidades que podem ser usadas de modo injusto.

2 Um comerciante cobra preços honestos apenas para preservar a clientela. Como avaliar esse motivo?

Conformidade externa e valor moral não são idênticos. Agir por dever envolve respeito à lei moral.

3 Qual enunciado é um imperativo hipotético?

O imperativo hipotético prescreve um meio condicionado a um fim desejado; o exemplo do idioma tem essa estrutura.

4 O que distingue o imperativo categórico?

A obrigação categórica não depende de uma recompensa ou de um objetivo particular do agente.

5 O que é uma máxima?

A máxima explicita o princípio de quem age; ela é o objeto do exame de universalização.

6 Por que a máxima da falsa promessa falha no exemplo kantiano?

O teste examina a coerência da máxima como lei universal, não apenas a aprovação pública ou a descoberta do engano.

7 Qual atitude respeita melhor a humanidade como fim?

Receber ajuda não é, por si, tratar alguém meramente como meio. O engano e a manipulação impedem a participação racional da pessoa.

8 Na ética kantiana, autonomia significa:

Autonomia é legislação racional universal; ela não autoriza privilégios ou regras convenientes apenas para o próprio agente.

9 Um dever imperfeito, como ajudar outras pessoas:

A latitude diz respeito à realização do dever, não à possibilidade de rejeitá-lo como princípio.

10 Qual alternativa expressa a relação entre liberdade e moralidade apresentada na ficha?

A liberdade prática está relacionada à autonomia; ela não é simples satisfação de impulsos nem uma observação empírica.