Primeiro período · 04 · Metafísicas · Immanuel Kant, 1724 — 1804
Kant e a crítica da metafísica
Hume mandou a metafísica para o fogo. Kant leu Hume, acordou do «sono dogmático» e
decidiu fazer outra coisa: levar a própria razão a julgamento. O veredito da Crítica da razão pura
é duplo. Conhecemos com necessidade muito mais do que Hume admitia — mas só dentro dos limites da
experiência possível. Para além deles, onde a metafísica tradicional queria provar a alma, o mundo e Deus,
a razão se enreda em ilusões que ela mesma produz.
1724Nasce em Königsberg, na Prússia Oriental. Praticamente nunca sairá da região.
1770Torna-se professor de lógica e metafísica. Começa a «década silenciosa», sem publicar quase nada.
1781Primeira edição da Crítica da razão pura (citada como «A»).
1783Prolegômenos a qualquer metafísica futura: versão curta da Crítica, e o elogio a Hume.
1787Segunda edição, muito revista, da Crítica («B»), com o prefácio da «revolução copernicana».
1788 · 1790Crítica da razão prática e Crítica da faculdade de julgar.
A razão humana tem o destino singular, num gênero de seus conhecimentos, de se ver atormentada por questões
que não pode rejeitar, pois lhe são impostas pela natureza da própria razão, mas às quais também não pode
responder, pois ultrapassam toda a sua capacidade.
Kant, Crítica da razão pura, prefácio da 1ª edição, A VII
A metafísica, que já foi «rainha de todas as ciências», virou para Kant um campo de batalhas:
cada escola prova o contrário da outra, e nenhuma vence. De um lado estão os
dogmáticos — Leibniz e Wolff —, que usam a razão pura para demonstrar a
imortalidade da alma ou a existência de Deus sem antes perguntar se ela é capaz disso. Do outro, os
céticos, como Hume, que destroem tudo e deixam a razão sem chão.
A saída de Kant é a crítica, palavra que em grego quer dizer separar, julgar.
Antes de usar a razão para conhecer o suprassensível, é preciso examinar a própria razão: o que ela pode
conhecer sem a experiência, e até onde. A Crítica é um tribunal em que a razão é, ao
mesmo tempo, ré e juíza.
§ 2 · Os juízos
Como são possíveis juízos sintéticos a priori?
Kant cruza duas distinções. A primeira é sobre a origem do conhecimento: a priori
é o que se sabe independentemente da experiência; a posteriori, o que depende dela.
A segunda é sobre o conteúdo do juízo:
Analítico: o predicado já está contido no conceito do sujeito. «Todos os corpos são
extensos» — basta analisar «corpo». Esclarece, mas não amplia o conhecimento.
Sintético: o predicado acrescenta algo que o sujeito não continha. «Todos os corpos são
pesados» — o peso não está no conceito de corpo. Amplia o conhecimento.
Analíticos são sempre a priori; sintéticos a posteriori são os da experiência comum.
O ponto polêmico é a quarta casa: juízos sintéticos a priori, que ampliam o
conhecimento e mesmo assim são necessários e universais. Kant diz que eles existem: «7 + 5 = 12» (o 12 não
está no conceito de «soma de 7 e 5»), «a linha reta é a mais curta entre dois pontos», «todo acontecimento
tem uma causa». E a metafísica, se for possível, só pode ser feita deles.
§ 3 · A revolução copernicana
Os objetos se regulam pelo nosso conhecimento
Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha de se regular pelos objetos; [...] tentemos, pois,
uma vez, se não nos sairemos melhor nas tarefas da metafísica supondo que os objetos têm de se regular
pelo nosso conhecimento.
Kant, Crítica da razão pura, prefácio da 2ª edição, B XVI
Copérnico, sem conseguir explicar os céus com o espectador parado, pôs o espectador para girar. Kant faz o
mesmo com o conhecimento. Se conhecemos algo a priori sobre os objetos, é porque esse algo vem de
nós — é a forma que a mente dá a tudo o que pode aparecer para ela.
Essas formas são de dois tipos. Na sensibilidade, o espaço e o
tempo: não são coisas lá fora nem conceitos tirados da experiência, mas as formas
a priori de toda intuição — tudo o que vemos, vemos no espaço e no tempo. No
entendimento, as doze categorias, entre elas
substância e causalidade: conceitos puros com que a mente liga o que a sensibilidade
lhe dá. Os dois precisam trabalhar juntos:
Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.
Kant, Crítica da razão pura, A 51 / B 75
§ 4 · O limite
Fenômeno e coisa em si
Se o espaço, o tempo e as categorias vêm de nós, então o que conhecemos são as coisas
como aparecem para nós: os fenômenos. As coisas como seriam em si
mesmas, independentemente da nossa forma de conhecer — a coisa em si, ou
númeno —, podem ser pensadas (não há contradição em supô-las), mas não
conhecidas. Para conhecer, é preciso intuição, e a nossa só alcança fenômenos.
Kant chama essa posição de idealismo transcendental. Não é dizer que o mundo é
um sonho: dentro da experiência, as mesas e os planetas são perfeitamente reais e a ciência os conhece com
rigor (Kant fala em «realismo empírico»). «Transcendental» quer dizer que a investigação é sobre as
condições de possibilidade do conhecimento, não sobre os objetos.
§ 5 · A dialética transcendental
Alma, mundo e Deus
A razão não se contenta com o condicionado: para cada condição, pede a condição dela, até o
incondicionado. Daí nascem três ideias da razão, que
correspondem às três partes da metafísica especial da época — e às três ilusões que a Crítica
desmonta:
A alma (psicologia racional) — paralogismos. Do «eu penso», que acompanha todas as
representações, conclui-se que a alma é uma substância simples, idêntica e imortal. Mas o «eu penso» é só
uma forma lógica, não uma intuição de substância: o raciocínio troca uma coisa pela outra.
O mundo (cosmologia racional) — antinomias. Quando a razão aplica as categorias ao mundo
como totalidade, prova igualmente bem teses contrárias: o mundo teve um início no tempo / o mundo não teve
início; há liberdade / tudo é necessidade natural. Uma razão que demonstra o «sim» e o «não» mostra que
passou do seu limite.
Deus (teologia racional) — o ideal. Kant reduz as provas da existência de Deus a três —
ontológica, cosmológica e físico-teológica — e mostra que as duas últimas dependem da primeira, e a
primeira falha.
Ser não é, evidentemente, um predicado real, isto é, um conceito de algo que possa ser acrescentado ao
conceito de uma coisa.
Kant, Crítica da razão pura, A 598 / B 626
O argumento ontológico conclui que Deus existe porque a existência estaria contida no conceito de ser
perfeito. Mas cem táleres reais não contêm um centavo a mais, no conceito, que cem táleres possíveis
— a diferença está no meu bolso, não na definição. Dizer que algo existe não acrescenta uma propriedade:
põe a coisa com todas as suas propriedades.
§ 6 · O que sobra da metafísica
Suprimir o saber para dar lugar à fé
O resultado é diferente do de Hume. Kant não queima a metafísica: delimita. A metafísica como
conhecimento teórico do suprassensível é impossível. Mas as ideias de alma, mundo e Deus têm um
uso regulativo legítimo: orientam a pesquisa, como um horizonte para o qual se
caminha sem nunca chegar. O erro é o uso constitutivo, tomá-las por objetos
conhecidos.
E, como a razão teórica não pode provar a liberdade, a imortalidade e Deus, também não pode refutá-los.
Fica aberto o espaço para a razão prática: na moral, Kant os retoma como
postulados — não sabidos, mas exigidos por quem age segundo o dever.
Tive, pois, de suprimir o saber para obter lugar para a fé.
Kant, Crítica da razão pura, prefácio da 2ª edição, B XXX
Por isso a Crítica não é o fim da metafísica, mas o seu «tratado do método». Kant pensa uma
metafísica futura, crítica, da natureza e dos costumes. O século XIX inteiro — Fichte, Hegel, o
neokantismo — se define a favor ou contra essa fronteira; e Heidegger, a próxima parada da disciplina,
escreverá em 1929 Kant e o problema da metafísica.
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão; cada questão mostra
a resposta certa e a explicação.