Atenas matou o homem mais justo que Platão conheceu, e fez isso por voto, em assembleia, seguindo a lei.
Toda a filosofia política dele nasce dessa conta que não fecha: se a cidade pode errar desse jeito,
quem deveria mandar nela — e por quê?
428/7 a.C.Platão nasce em Atenas, numa família aristocrática, no começo da Guerra do Peloponeso.
404 a.C.Atenas perde a guerra. Governo dos Trinta Tiranos, entre eles parentes de Platão.
399 a.C.A democracia restaurada condena Sócrates à morte.
c. 387 a.C.Funda a Academia. A República é escrita nas décadas seguintes.
367 e 361 a.C.Viagens a Siracusa para educar Dionísio II. As duas fracassam.
348/7 a.C.Morre deixando as Leis inacabadas.
§ 1 · Contexto
Desiludido com os dois lados
Platão não chega à política pela teoria, e sim pela decepção. Na Carta VII ele conta
que, jovem, pensava em entrar na vida pública. Viu primeiro o governo oligárquico dos Trinta — gente
da própria família — fazer a democracia anterior parecer uma idade de ouro. Depois viu a democracia
restaurada levar Sócrates ao tribunal. Concluiu que todas as cidades existentes eram mal governadas.
Os males não cessarão para o gênero humano antes que a raça dos verdadeiros filósofos chegue ao poder,
ou que os que governam as cidades, por uma graça divina, se ponham verdadeiramente a filosofar.
Platão, Carta VII, 326a-b
Por isso a pergunta política de Platão não é «qual regime é o mais livre» nem «qual é o mais estável».
É uma pergunta sobre justiça: o que é uma cidade justa, e o que ela
exigiria de quem a governa.
§ 2 · República, I–II
Dois desafios à justiça
A República abre com uma provocação. O sofista Trasímaco afirma que
a justiça é a vantagem do mais forte (338c): cada governo faz leis que lhe convêm e chama
de «justo» obedecê-las. Justiça seria só o nome bonito da dominação.
No livro II, Gláucon reforça o desafio de um jeito mais incômodo. Ninguém é justo
porque quer; as pessoas fazem um acordo de não cometer injustiça só para não sofrer injustiça.
E conta a história do anel de Giges (359c-360d): um pastor encontra um anel
que o torna invisível, seduz a rainha, mata o rei e toma o trono. Quem, tendo esse anel, continuaria justo?
Sócrates responde com uma estratégia de leitura: a justiça existe na alma de cada um e na cidade,
mas na cidade ela está escrita «em letras maiores» (368d). Então vale construir uma cidade
em palavras, observar onde a justiça aparece nela e depois procurar a mesma coisa na alma.
§ 3 · República, II–IV
A cidade justa
A cidade nasce da necessidade: ninguém se basta sozinho, e cada um faz melhor uma única coisa.
Daí vem a divisão do trabalho. A primeira cidade é simples e saudável;
quando Gláucon reclama que ela é uma «cidade de porcos», Sócrates aceita uma cidade luxuosa,
«febril» — e uma cidade que quer mais do que precisa vai à guerra. Precisa de guardiões.
Daí as três classes, cada uma com sua virtude:
Governantes (os guardiões perfeitos): sabedoria ·
Auxiliares (soldados): coragem ·
Produtores (agricultores, artesãos, comerciantes): a cidade inteira precisa de
temperança, que é o acordo sobre quem deve mandar.
E a justiça, a quarta virtude, é a ordem do conjunto:
cada um fazer o que é seu sem se intrometer na função dos outros (433a).
A injustiça é a intromissão — o comerciante que quer governar, o soldado que quer enriquecer.
A nobre mentira
Para que todos aceitem essa ordem, Sócrates propõe contar aos cidadãos um mito (414b-415d):
o deus misturou ouro na alma dos que nascem para governar, prata na dos auxiliares,
ferro e bronze na dos produtores. Todos são irmãos, filhos da mesma terra.
§ 4 · República, V–VII
As três ondas e o rei-filósofo
No livro V, Sócrates diz que vai enfrentar três «ondas» de objeções, cada uma maior que a anterior:
1. Mulheres e homens da classe guardiã recebem a mesma educação e exercem as mesmas
funções, inclusive governar e guerrear. A diferença de sexo importa tanto para governar quanto
ser careca ou cabeludo importa para ser sapateiro (454c). 2. Entre os guardiões não há família nem propriedade privada: mulheres, filhos e bens
são comuns, para que ninguém diga «isto é meu» contra a cidade. 3. A maior delas: os filósofos devem governar, ou os governantes devem se tornar filósofos (473c-d).
Por que o filósofo?
Porque governar é um saber, e só o filósofo conhece o que é o bem — não opiniões sobre ele.
A imagem do navio (488a-489a) resume a crítica: os marinheiros brigam pelo leme,
bajulam o dono do barco, que é forte mas meio surdo e míope, e acham que pilotar não se aprende.
O verdadeiro piloto, que estuda o céu e os ventos, é chamado de inútil e de «observador de estrelas».
E o filósofo não quer governar: depois de sair da caverna, prefere contemplar. Justamente por isso deve governar.
Sócrates diz que é preciso obrigá-lo a voltar (520a-c), porque a lei visa o bem da cidade
inteira e não a felicidade de uma classe — e porque a cidade em que os governantes menos desejam
o poder é a mais bem governada.
§ 5 · República, VIII–IX
Como as cidades apodrecem
A cidade ideal, chamada aristocracia (governo dos melhores), também decai.
Platão descreve uma sequência de regimes, cada um correspondendo a um tipo de alma:
Timocracia: governo dos que amam a honra e a vitória, como Esparta ·
Oligarquia: governo dos ricos; a cidade se divide em duas, ricos e pobres ·
Democracia: os pobres vencem; cada um vive como quer, e a cidade parece um
«manto multicolorido» (557c) · Tirania: o pior de todos.
A tirania nasce da democracia: o povo escolhe um protetor contra os ricos, e o protetor vira lobo.
O tirano é escravo dos próprios apetites, cercado de bajuladores, sem amigos. Platão calcula, meio
a sério, meio brincando, que o rei justo vive 729 vezes mais feliz que o tirano (587e).
É aqui que a resposta a Gláucon se completa: o injusto não é feliz nem com o anel no dedo.
§ 6 · Político e Leis
O Platão tardio
Depois de Siracusa, Platão continua pensando a política, mas o tom muda. No Político
o governante é comparado a um tecelão: a ciência régia entrelaça
temperamentos opostos — os corajosos e os moderados — num tecido só. E aparece uma concessão:
onde não há o verdadeiro sábio, as leis escritas são a melhor imitação possível do seu saber.
Nas Leis, seu último e mais longo diálogo, Platão desenha a cidade de Magnésia e
admite que ela é a segunda melhor (739a-e): a primeira, com tudo em comum, seria para
deuses ou filhos de deuses. Magnésia é governada por leis, tem magistrados eleitos e uma
constituição mista, entre a monarquia e a democracia (693d-e).
§ 7 · Recepção
Inimigo da sociedade aberta?
Em 1945, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, cujo primeiro volume
é dedicado a Platão. Para Popper, a República é o projeto de uma sociedade fechada:
censura dos poetas, mentira oficial, controle da reprodução, o indivíduo subordinado ao todo.
Platão seria um antepassado do totalitarismo.
Leo Strauss, que está na bibliografia básica do curso, lê o mesmo texto de outro jeito: a cidade
ideal seria uma demonstração dos limites da política. Uma cidade perfeitamente justa exigiria
coisas tão contrárias à natureza humana que mostrar isso é mostrar por que ela não pode existir.
A República seria, em parte, irônica.
O que fica, seja qual for a leitura, é a pergunta que Platão deixou para os que vieram depois —
Aristóteles, Hobbes, Rousseau, e também Rancière, que vê na República o modelo de toda
«partilha do sensível» que diz a cada um qual é o seu lugar: quem tem o direito de governar, e com base em quê?
Exercício
Questionário
Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em
Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.