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Segundo período · 08 · Ficha de estudo

A filosofia política de Platão

Atenas matou o homem mais justo que Platão conheceu, e fez isso por voto, em assembleia, seguindo a lei. Toda a filosofia política dele nasce dessa conta que não fecha: se a cidade pode errar desse jeito, quem deveria mandar nela — e por quê?

  1. 428/7 a.C.Platão nasce em Atenas, numa família aristocrática, no começo da Guerra do Peloponeso.
  2. 404 a.C.Atenas perde a guerra. Governo dos Trinta Tiranos, entre eles parentes de Platão.
  3. 399 a.C.A democracia restaurada condena Sócrates à morte.
  4. c. 387 a.C.Funda a Academia. A República é escrita nas décadas seguintes.
  5. 367 e 361 a.C.Viagens a Siracusa para educar Dionísio II. As duas fracassam.
  6. 348/7 a.C.Morre deixando as Leis inacabadas.

§ 1 · Contexto

Desiludido com os dois lados

Platão não chega à política pela teoria, e sim pela decepção. Na Carta VII ele conta que, jovem, pensava em entrar na vida pública. Viu primeiro o governo oligárquico dos Trinta — gente da própria família — fazer a democracia anterior parecer uma idade de ouro. Depois viu a democracia restaurada levar Sócrates ao tribunal. Concluiu que todas as cidades existentes eram mal governadas.

Os males não cessarão para o gênero humano antes que a raça dos verdadeiros filósofos chegue ao poder, ou que os que governam as cidades, por uma graça divina, se ponham verdadeiramente a filosofar. Platão, Carta VII, 326a-b

Por isso a pergunta política de Platão não é «qual regime é o mais livre» nem «qual é o mais estável». É uma pergunta sobre justiça: o que é uma cidade justa, e o que ela exigiria de quem a governa.

§ 2 · República, I–II

Dois desafios à justiça

A República abre com uma provocação. O sofista Trasímaco afirma que a justiça é a vantagem do mais forte (338c): cada governo faz leis que lhe convêm e chama de «justo» obedecê-las. Justiça seria só o nome bonito da dominação.

No livro II, Gláucon reforça o desafio de um jeito mais incômodo. Ninguém é justo porque quer; as pessoas fazem um acordo de não cometer injustiça só para não sofrer injustiça. E conta a história do anel de Giges (359c-360d): um pastor encontra um anel que o torna invisível, seduz a rainha, mata o rei e toma o trono. Quem, tendo esse anel, continuaria justo?

Sócrates responde com uma estratégia de leitura: a justiça existe na alma de cada um e na cidade, mas na cidade ela está escrita «em letras maiores» (368d). Então vale construir uma cidade em palavras, observar onde a justiça aparece nela e depois procurar a mesma coisa na alma.

§ 3 · República, II–IV

A cidade justa

A cidade nasce da necessidade: ninguém se basta sozinho, e cada um faz melhor uma única coisa. Daí vem a divisão do trabalho. A primeira cidade é simples e saudável; quando Gláucon reclama que ela é uma «cidade de porcos», Sócrates aceita uma cidade luxuosa, «febril» — e uma cidade que quer mais do que precisa vai à guerra. Precisa de guardiões.

Daí as três classes, cada uma com sua virtude:

Governantes (os guardiões perfeitos): sabedoria · Auxiliares (soldados): coragem · Produtores (agricultores, artesãos, comerciantes): a cidade inteira precisa de temperança, que é o acordo sobre quem deve mandar.

E a justiça, a quarta virtude, é a ordem do conjunto: cada um fazer o que é seu sem se intrometer na função dos outros (433a). A injustiça é a intromissão — o comerciante que quer governar, o soldado que quer enriquecer.

A nobre mentira

Para que todos aceitem essa ordem, Sócrates propõe contar aos cidadãos um mito (414b-415d): o deus misturou ouro na alma dos que nascem para governar, prata na dos auxiliares, ferro e bronze na dos produtores. Todos são irmãos, filhos da mesma terra.

§ 4 · República, V–VII

As três ondas e o rei-filósofo

No livro V, Sócrates diz que vai enfrentar três «ondas» de objeções, cada uma maior que a anterior:

1. Mulheres e homens da classe guardiã recebem a mesma educação e exercem as mesmas funções, inclusive governar e guerrear. A diferença de sexo importa tanto para governar quanto ser careca ou cabeludo importa para ser sapateiro (454c).
2. Entre os guardiões não há família nem propriedade privada: mulheres, filhos e bens são comuns, para que ninguém diga «isto é meu» contra a cidade.
3. A maior delas: os filósofos devem governar, ou os governantes devem se tornar filósofos (473c-d).

Por que o filósofo?

Porque governar é um saber, e só o filósofo conhece o que é o bem — não opiniões sobre ele. A imagem do navio (488a-489a) resume a crítica: os marinheiros brigam pelo leme, bajulam o dono do barco, que é forte mas meio surdo e míope, e acham que pilotar não se aprende. O verdadeiro piloto, que estuda o céu e os ventos, é chamado de inútil e de «observador de estrelas».

E o filósofo não quer governar: depois de sair da caverna, prefere contemplar. Justamente por isso deve governar. Sócrates diz que é preciso obrigá-lo a voltar (520a-c), porque a lei visa o bem da cidade inteira e não a felicidade de uma classe — e porque a cidade em que os governantes menos desejam o poder é a mais bem governada.

§ 5 · República, VIII–IX

Como as cidades apodrecem

A cidade ideal, chamada aristocracia (governo dos melhores), também decai. Platão descreve uma sequência de regimes, cada um correspondendo a um tipo de alma:

Timocracia: governo dos que amam a honra e a vitória, como Esparta · Oligarquia: governo dos ricos; a cidade se divide em duas, ricos e pobres · Democracia: os pobres vencem; cada um vive como quer, e a cidade parece um «manto multicolorido» (557c) · Tirania: o pior de todos.

A tirania nasce da democracia: o povo escolhe um protetor contra os ricos, e o protetor vira lobo. O tirano é escravo dos próprios apetites, cercado de bajuladores, sem amigos. Platão calcula, meio a sério, meio brincando, que o rei justo vive 729 vezes mais feliz que o tirano (587e). É aqui que a resposta a Gláucon se completa: o injusto não é feliz nem com o anel no dedo.

§ 6 · Político e Leis

O Platão tardio

Depois de Siracusa, Platão continua pensando a política, mas o tom muda. No Político o governante é comparado a um tecelão: a ciência régia entrelaça temperamentos opostos — os corajosos e os moderados — num tecido só. E aparece uma concessão: onde não há o verdadeiro sábio, as leis escritas são a melhor imitação possível do seu saber.

Nas Leis, seu último e mais longo diálogo, Platão desenha a cidade de Magnésia e admite que ela é a segunda melhor (739a-e): a primeira, com tudo em comum, seria para deuses ou filhos de deuses. Magnésia é governada por leis, tem magistrados eleitos e uma constituição mista, entre a monarquia e a democracia (693d-e).

§ 7 · Recepção

Inimigo da sociedade aberta?

Em 1945, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, cujo primeiro volume é dedicado a Platão. Para Popper, a República é o projeto de uma sociedade fechada: censura dos poetas, mentira oficial, controle da reprodução, o indivíduo subordinado ao todo. Platão seria um antepassado do totalitarismo.

Leo Strauss, que está na bibliografia básica do curso, lê o mesmo texto de outro jeito: a cidade ideal seria uma demonstração dos limites da política. Uma cidade perfeitamente justa exigiria coisas tão contrárias à natureza humana que mostrar isso é mostrar por que ela não pode existir. A República seria, em parte, irônica.

O que fica, seja qual for a leitura, é a pergunta que Platão deixou para os que vieram depois — Aristóteles, Hobbes, Rousseau, e também Rancière, que vê na República o modelo de toda «partilha do sensível» que diz a cada um qual é o seu lugar: quem tem o direito de governar, e com base em quê?

Exercício

Questionário

Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.

1 No livro I da República, Trasímaco define a justiça como:

Trasímaco diz que cada governo faz leis a seu favor e chama de justo obedecê-las (338c). «Dar a cada um o que é devido» é a definição de Polemarco; «cada um fazer o que é seu» é a de Sócrates, no livro IV.

2 Para que Gláucon conta a história do anel de Giges?

Se ninguém pudesse nos ver, ninguém continuaria justo — é isso que o anel testa. Gláucon quer que Sócrates prove que a justiça vale por si mesma, mesmo com o anel no dedo.

3 Por que Sócrates decide construir uma cidade «em palavras»?

É a estratégia das letras grandes e pequenas (368d): a mesma justiça existe na alma e na cidade, mas na cidade é mais visível. A cidade é um instrumento para entender a alma.

4 Na cidade justa da República, a justiça consiste em:

«Cada um fazer o que é seu» (433a). A injustiça, ao contrário, é a intromissão: o produtor que quer governar, o soldado que quer enriquecer.

5 Qual virtude corresponde à classe dos auxiliares, os soldados?

Sabedoria é dos governantes; coragem, dos auxiliares; a temperança é de toda a cidade, o acordo sobre quem deve mandar. Na alma, os auxiliares correspondem à parte irascível.

6 Sobre o mito dos metais (a «nobre mentira»), qual afirmação está errada?

Esse é o erro: o mito prevê que um filho de pais de ouro pode nascer com bronze e descer, e um filho de produtores pode nascer com ouro e subir (415b-c). O critério é a natureza de cada um, não a herança.

7 Qual destas propostas não é uma das «três ondas» do livro V?

O sorteio é a prática da democracia ateniense — exatamente o que Platão critica. Para ele não se sorteia o piloto do navio: governar exige saber.

8 Na imagem do navio (488a-489a), o verdadeiro piloto, desprezado pelos marinheiros, representa:

O dono do navio, forte mas surdo e míope, é o povo; os marinheiros que disputam o leme, os demagogos; o piloto chamado de «observador de estrelas», o filósofo. A crítica é à escolha de governantes pela persuasão e não pelo saber.

9 Por que, segundo Sócrates, o filósofo que saiu da caverna deve ser obrigado a voltar e governar?

O filósofo preferiria contemplar. Mas a cidade o educou, e a lei pensa no todo, não na felicidade de uma classe (520a-c). A cidade em que os governantes menos querem mandar é a mais bem governada.

10 Qual é a ordem da decadência dos regimes nos livros VIII e IX?

Cada regime cai pelo excesso do bem que persegue. A democracia, a penúltima, cai por excesso de liberdade, e dela nasce a tirania (564a).

11 O que muda nas Leis em relação à República?

Magnésia é a segunda melhor cidade (739a-e). O ideal da República fica como modelo, mas Platão procura o viável para homens reais: leis com preâmbulos, magistrados eleitos, constituição mista (693d-e).

12 Em A sociedade aberta e seus inimigos (1945), Karl Popper lê Platão como:

Para Popper, censura, mentira oficial e subordinação do indivíduo ao todo fazem da República um projeto de sociedade fechada. A leitura «irônica», da alternativa b, é a de Leo Strauss.