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Segundo período · 09 · Metodologia e Prática em Pesquisa

Métodos científicos

Observar casos, tirar consequências de uma teoria, testar uma hipótese ou investigar contradições: há diferentes caminhos para construir conhecimento. O capítulo 4 de Marconi e Lakatos apresenta esses caminhos e distingue a orientação geral da pesquisa dos procedimentos usados para realizá-la.

Ficha de leitura · capítulo 4 de Metodologia científica · síntese em palavras próprias

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§ 1 · Capítulo 4.1 e 4.2 · p. 83–85

Um caminho que permite reconhecer erros

Para Marconi e Lakatos, método é uma organização de atividades sistemáticas e racionais para alcançar conhecimentos fundamentados. Ele orienta o percurso da investigação, ajuda a tomar decisões e permite detectar erros. A ciência exige métodos, mas o simples uso de um procedimento metódico não basta para transformar qualquer atividade em ciência.

Na apresentação histórica do capítulo, as explicações míticas recorrem a forças sobrenaturais; as religiosas, à revelação e ao dogma; e a filosofia busca compreender racionalmente a realidade. A investigação científica ganha espaço ao reunir observação e raciocínio para estudar relações entre fenômenos. O interesse desloca-se das causas últimas para problemas que podem ser investigados.

O ciclo de investigação em Bunge

As autoras recorrem a Bunge para apresentar a pesquisa como um ciclo que pode exigir retornos e correções:

  1. Identificar uma lacuna ou um problema no conhecimento.
  2. Formular o problema com precisão.
  3. Buscar conhecimentos e instrumentos relevantes.
  4. Tentar resolver o problema com os meios disponíveis.
  5. Se necessário, criar hipóteses, técnicas ou novos dados.
  6. Obter uma solução, exata ou aproximada.
  7. Examinar as consequências da solução.
  8. Confrontá-la com teorias e informações empíricas pertinentes.
  9. Corrigir o que não resistiu ao confronto e iniciar outro ciclo.

§ 2 · Capítulo 4.3 · p. 86–91

Indução: dos casos observados à generalização

Na indução, observações particulares sustentam uma conclusão mais ampla. O pesquisador examina alguns casos e propõe algo sobre uma classe que inclui casos ainda não observados. Por isso, a conclusão acrescenta informação às premissas, mas permanece provável: mesmo com premissas verdadeiras, não está logicamente garantida.

Exemplo didático: depois de observar dificuldades semelhantes de acesso à biblioteca em várias turmas do turno noturno, alguém propõe que esse problema afeta os estudantes noturnos da instituição. A conclusão ultrapassa os casos examinados; é preciso justificar a escolha das turmas e procurar situações que contrariem a generalização.

As três fases

  1. Observação: examinar os fatos ou fenômenos.
  2. Descoberta de relações: comparar os casos e identificar relações constantes.
  3. Generalização: estender a relação a outros casos semelhantes.

O capítulo distingue a indução completa ou formal, que enumera todos os elementos de um conjunto, da incompleta ou científica, que generaliza a partir de parte deles. Nesta última, quantidade e representatividade dos casos importam: uma amostra maior não corrige, por si só, uma seleção tendenciosa.

Duas falácias de amostragem

Amostra insuficiente: os dados são poucos para sustentar a extensão da conclusão. Amostra tendenciosa: a seleção não representa a população sobre a qual se quer concluir. Consultar apenas quem frequenta a biblioteca, por exemplo, deixa de fora justamente quem não consegue acessá-la.

§ 3 · Capítulo 4.4 · p. 91–95

Dedução: o que decorre das premissas?

Na dedução, a conclusão decorre necessariamente das premissas quando a forma do argumento é válida. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão de uma dedução válida também será. Diferentemente da indução, ela explicita consequências que já estão implicadas nas premissas.

Exemplo didático: todos os trabalhos deste seminário exigem referências; este texto é um trabalho do seminário; portanto, este texto exige referências. A regra geral é aplicada ao caso. O capítulo também lembra que demonstrações matemáticas são dedutivas e podem revelar consequências pouco óbvias.

Dois argumentos condicionais válidos

Modus ponens, afirmação do antecedente: se P, então Q; P; logo, Q. Se um arquivo foi entregue no prazo, ele consta no protocolo; foi entregue no prazo; logo, consta no protocolo.

Modus tollens, negação do consequente: se P, então Q; não Q; logo, não P. Se um arquivo foi entregue no prazo, ele consta no protocolo; não consta no protocolo; logo, não foi entregue no prazo. A conclusão depende de aceitar como verdadeira a regra da primeira premissa.

§ 4 · Capítulo 4.5.1 · p. 95–99

Popper: conjecturas e tentativas de refutação

O método hipotético-dedutivo, na exposição de Popper, começa com um problema: algo contraria expectativas ou deixa uma lacuna nas teorias disponíveis. Propõe-se uma conjectura, deduzem-se consequências observáveis e procuram-se testes capazes de refutá-la.

O percurso pode ser resumido assim: P1 → TT → EE → P2. P1 é o problema inicial; TT, a teoria-tentativa; EE, a eliminação de erros pela crítica; P2, os novos problemas que surgem. A pesquisa não termina numa certeza imune à revisão.

Falseabilidade é a possibilidade de indicar condições nas quais uma hipótese seria contrariada pela experiência. Uma afirmação que acomoda qualquer resultado não oferece um teste capaz de refutá-la. Quanto mais precisas as consequências empíricas, mais claro pode ser o confronto.

Exemplo didático: a hipótese «todos os estudantes desta turma entregaram o trabalho» prevê que cada estudante tenha uma entrega registrada. Uma ausência efetivamente verificada contraria essa afirmação universal. Já encontrar várias entregas não prova que todos entregaram.

O teste recorre à estrutura do modus tollens: se a hipótese implica Q, mas Q não ocorre nas condições previstas, é preciso rejeitar ou revisar a explicação testada. Se a hipótese resiste a testes severos, fica corroborada: sustentada provisoriamente, sem ter sido demonstrada como verdadeira para sempre.

§ 5 · Capítulo 4.5.2 · p. 99–100

Bunge: construir, testar e reajustar um modelo

Bunge organiza o método hipotético-dedutivo em cinco momentos, dando destaque à ligação entre o modelo teórico, suas consequências e os dados da investigação:

  1. Colocação do problema: reconhecer fatos relevantes, encontrar lacunas e formular uma questão investigável.
  2. Construção do modelo teórico: selecionar fatores e propor hipóteses centrais e suposições auxiliares.
  3. Dedução de consequências particulares: produzir previsões ou explicações de acontecimentos passados que possam ser confrontadas com dados.
  4. Teste das hipóteses: planejar e executar observações, medições ou experimentos; analisar e interpretar os dados.
  5. Introdução das conclusões na teoria: comparar resultados e previsões, reajustar o modelo e indicar novas pesquisas.

O último momento devolve os resultados à teoria. Um desencontro exige examinar tanto as hipóteses quanto os procedimentos usados; um resultado favorável permite explorar desdobramentos.

§ 6 · Capítulo 4.6 · p. 100–106

Dialética: relações, processos e contradições

Na apresentação da dialética materialista feita no capítulo, a realidade é compreendida como um conjunto de processos ligados entre si. Investigar significa considerar a história, as relações e as contradições de um fenômeno, em vez de tratá-lo como algo fixo e isolado.

As autoras observam que diferentes intérpretes variam na quantidade e no nome das leis. A síntese adotada no capítulo reúne quatro:

1. Ação recíproca

Os fenômenos dependem uns dos outros e se condicionam mutuamente. Uma escola, por exemplo, precisa ser estudada em suas relações com famílias, trabalho, políticas públicas e condições materiais.

2. Mudança dialética ou negação da negação

As coisas se transformam e novas formas surgem pela superação das anteriores. A segunda negação não é uma volta idêntica ao começo: o processo conserva e transforma elementos da situação inicial. O capítulo ilustra isso com o grão que se torna planta e produz novos grãos.

3. Passagem da quantidade à qualidade

Mudanças acumuladas podem produzir uma mudança de estado ou de organização. O aquecimento da água, sob determinadas condições de pressão, exemplifica a passagem de variações de temperatura a uma transformação de estado. A mudança qualitativa depende das condições do processo.

4. Interpenetração dos contrários

As contradições internas participam do desenvolvimento: forças ou tendências opostas pertencem à mesma realidade e entram em tensão. Na classificação do capítulo, a contradição é interna, inovadora e envolve a unidade dos contrários.

§ 7 · Capítulo 4.7.1 a 4.7.8 · p. 106–111

Abordagem e procedimentos: dois níveis da pesquisa

Os métodos de abordagem orientam o raciocínio em nível mais amplo e abstrato: indutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo e dialético. Os métodos de procedimento organizam aspectos mais concretos da investigação em um domínio específico. Nas ciências sociais, uma mesma pesquisa pode combinar vários procedimentos.

Histórico · origens e transformações

Investiga processos do passado para compreender instituições, formas de vida e relações atuais, considerando o contexto em que surgiram. Exemplo didático: reconstruir a formação de uma rede escolar.

Comparativo · semelhanças e diferenças

Compara grupos, sociedades ou instituições, contemporâneos ou de épocas distintas, para reconhecer regularidades e diferenças. Pode trabalhar com dados qualitativos e quantitativos. Exemplo didático: comparar a organização de bibliotecas em duas escolas.

Monográfico · um caso em profundidade

Examina indivíduos, grupos, instituições ou comunidades em seus diversos aspectos. O capítulo associa esse estudo aprofundado à busca de generalizações. Exemplo didático: investigar uma escola em suas relações com a comunidade.

Estatístico · descrição e análise quantitativa

Representa fenômenos complexos por dados numéricos e analisa sua ocorrência, variação e relações. Não serve apenas para descrever: também apoia o exame de hipóteses. Exemplo didático: analisar a distribuição das taxas de frequência escolar.

Tipológico · tipos ideais

Associado a Weber, constrói tipos ideais a partir de características selecionadas e acentuadas. O tipo ideal é um instrumento de comparação e compreensão dos casos concretos: não é uma média estatística nem um modelo de perfeição moral.

Funcionalista · as partes e o todo

Examina as funções de instituições e práticas num sistema social. O capítulo destaca a distinção de Merton entre funções manifestas, pretendidas e reconhecidas, e latentes, consequências não pretendidas ou não reconhecidas.

Estruturalista · relações e modelos

Associado a Lévi-Strauss, parte do fenômeno concreto, constrói um modelo abstrato de suas relações e retorna ao concreto para interpretá-lo. O foco recai nas relações entre os elementos. O percurso é concreto → abstrato → concreto.

§ 8 · Capítulo 4.7.9 · p. 112

O quadro de referência liga teoria e investigação

O quadro de referência reúne a teoria e a metodologia que orientam a interpretação da realidade. A metodologia engloba métodos de abordagem, métodos de procedimento e técnicas. A escolha de cada parte precisa ser coerente com o problema e com o conjunto da pesquisa.

O capítulo oferece como exemplo o quadro marxista: teoria do materialismo histórico, abordagem dialética, procedimentos histórico e comparativo e técnicas específicas de coleta de dados. Também mostra que procedimentos podem ser combinados para examinar um objeto por diferentes ângulos.

Exemplo didático: uma pesquisa sobre a história e as diferenças de acesso à biblioteca de duas escolas pode articular procedimentos histórico e comparativo, além de análise estatística dos registros. Entrevistas e análise documental entram como técnicas. A teoria escolhida orienta o significado que se atribui aos dados.

Exercício · revisão do capítulo

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre a teoria acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece abaixo do botão, com a nota, as questões certas, erradas e em branco e uma explicação para cada resposta.

1 Na definição de Marconi e Lakatos, qual é a principal função do método científico?

O método organiza a investigação e permite avaliar seu percurso. Ele ajuda a construir conhecimento fundamentado, sem tornar as conclusões imunes à revisão. Veja § 1.

2 Uma pesquisa observa alguns casos e propõe uma conclusão que inclui casos não observados. Esse raciocínio é:

A indução generaliza a partir de casos particulares. Mesmo com premissas verdadeiras, a conclusão não é logicamente garantida. Veja § 2.

3 Para conhecer o acesso à biblioteca de todos os estudantes, uma pesquisa consulta muitas pessoas, mas somente frequentadores da biblioteca. O principal problema é:

A seleção deixa de fora uma parte relevante da população. Aumentar o número de frequentadores consultados não corrige essa falta de representatividade. Veja § 2.

4 O que se pode afirmar sobre um argumento dedutivo válido?

A validade garante a ligação necessária entre premissas e conclusão; a verdade das premissas precisa ser examinada separadamente. Veja § 3.

5 Qual alternativa apresenta a forma válida do modus tollens?

O modus tollens nega o consequente: se P implicaria Q, a ausência de Q permite concluir não P. Essa forma participa das tentativas de refutação. Veja § 3 e § 4.

6 Para Popper, uma hipótese corroborada é uma hipótese que:

Corroboração é sustentação provisória após testes, não prova definitiva. A falseabilidade exige indicar resultados que poderiam contrariar a hipótese. Veja § 4.

7 Na apresentação de Bunge, o que vem depois de testar hipóteses e interpretar os dados?

O quinto momento introduz as conclusões na teoria: confronta o previsto com o observado, revê o modelo e propõe desdobramentos. Veja § 5.

8 Na dialética apresentada no capítulo, a transformação da água líquida em vapor após o aquecimento, sob condições de pressão definidas, exemplifica:

A variação de temperatura é quantitativa; a transformação de estado é qualitativa. As condições, como a pressão, integram o processo. Veja § 6.

9 Qual alternativa distingue corretamente métodos de abordagem e de procedimento?

As abordagens orientam o raciocínio em nível amplo. Os procedimentos organizam aspectos mais concretos da investigação e podem ser usados em conjunto. Veja § 7.

10 Um quadro de referência de pesquisa articula:

O quadro de referência reúne teoria e metodologia. Técnicas isoladas, sem relação com o problema e com a orientação teórica, não formam esse conjunto. Veja § 8.