Segundo período · 09 · Metodologia e Prática em Pesquisa
Métodos científicos
Observar casos, tirar consequências de uma teoria, testar uma hipótese ou investigar
contradições: há diferentes caminhos para construir conhecimento. O capítulo 4 de Marconi e Lakatos
apresenta esses caminhos e distingue a orientação geral da pesquisa dos procedimentos usados para realizá-la.
Ficha de leitura · capítulo 4 de Metodologia científica · síntese em palavras próprias
Para Marconi e Lakatos, método é uma organização de atividades
sistemáticas e racionais para alcançar conhecimentos fundamentados. Ele orienta o percurso da
investigação, ajuda a tomar decisões e permite detectar erros. A ciência exige métodos, mas o simples
uso de um procedimento metódico não basta para transformar qualquer atividade em ciência.
Na apresentação histórica do capítulo, as explicações míticas recorrem a forças sobrenaturais;
as religiosas, à revelação e ao dogma; e a filosofia busca compreender racionalmente a realidade.
A investigação científica ganha espaço ao reunir observação e raciocínio para estudar
relações entre fenômenos. O interesse desloca-se das causas últimas para problemas que podem ser investigados.
O ciclo de investigação em Bunge
As autoras recorrem a Bunge para apresentar a pesquisa como um ciclo que pode exigir retornos e correções:
Identificar uma lacuna ou um problema no conhecimento.
Formular o problema com precisão.
Buscar conhecimentos e instrumentos relevantes.
Tentar resolver o problema com os meios disponíveis.
Se necessário, criar hipóteses, técnicas ou novos dados.
Obter uma solução, exata ou aproximada.
Examinar as consequências da solução.
Confrontá-la com teorias e informações empíricas pertinentes.
Corrigir o que não resistiu ao confronto e iniciar outro ciclo.
§ 2 · Capítulo 4.3 · p. 86–91
Indução: dos casos observados à generalização
Na indução, observações particulares sustentam uma conclusão mais ampla.
O pesquisador examina alguns casos e propõe algo sobre uma classe que inclui casos ainda não observados.
Por isso, a conclusão acrescenta informação às premissas, mas permanece provável:
mesmo com premissas verdadeiras, não está logicamente garantida.
Exemplo didático: depois de observar dificuldades semelhantes de acesso à biblioteca
em várias turmas do turno noturno, alguém propõe que esse problema afeta os estudantes noturnos da
instituição. A conclusão ultrapassa os casos examinados; é preciso justificar a escolha das turmas
e procurar situações que contrariem a generalização.
As três fases
Observação: examinar os fatos ou fenômenos.
Descoberta de relações: comparar os casos e identificar relações constantes.
Generalização: estender a relação a outros casos semelhantes.
O capítulo distingue a indução completa ou formal, que enumera todos os elementos
de um conjunto, da incompleta ou científica, que generaliza a partir de parte deles.
Nesta última, quantidade e representatividade dos casos importam: uma amostra maior não corrige,
por si só, uma seleção tendenciosa.
Duas falácias de amostragem
Amostra insuficiente: os dados são poucos para sustentar a extensão da conclusão.
Amostra tendenciosa: a seleção não representa a população sobre a qual se quer concluir.
Consultar apenas quem frequenta a biblioteca, por exemplo, deixa de fora justamente quem não consegue acessá-la.
§ 3 · Capítulo 4.4 · p. 91–95
Dedução: o que decorre das premissas?
Na dedução, a conclusão decorre necessariamente das premissas quando
a forma do argumento é válida. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão de uma dedução válida
também será. Diferentemente da indução, ela explicita consequências que já estão implicadas nas premissas.
Exemplo didático: todos os trabalhos deste seminário exigem referências; este texto
é um trabalho do seminário; portanto, este texto exige referências. A regra geral é aplicada ao caso.
O capítulo também lembra que demonstrações matemáticas são dedutivas e podem revelar consequências pouco óbvias.
Dois argumentos condicionais válidos
Modus ponens, afirmação do antecedente: se P, então Q; P; logo, Q.
Se um arquivo foi entregue no prazo, ele consta no protocolo; foi entregue no prazo; logo, consta no protocolo.
Modus tollens, negação do consequente: se P, então Q; não Q; logo, não P.
Se um arquivo foi entregue no prazo, ele consta no protocolo; não consta no protocolo; logo, não foi
entregue no prazo. A conclusão depende de aceitar como verdadeira a regra da primeira premissa.
§ 4 · Capítulo 4.5.1 · p. 95–99
Popper: conjecturas e tentativas de refutação
O método hipotético-dedutivo, na exposição de Popper, começa com um
problema: algo contraria expectativas ou deixa uma lacuna nas teorias disponíveis. Propõe-se uma
conjectura, deduzem-se consequências observáveis e procuram-se testes capazes de refutá-la.
O percurso pode ser resumido assim: P1 → TT → EE → P2.
P1 é o problema inicial; TT, a teoria-tentativa; EE, a eliminação de erros pela crítica;
P2, os novos problemas que surgem. A pesquisa não termina numa certeza imune à revisão.
Falseabilidade é a possibilidade de indicar condições nas quais uma
hipótese seria contrariada pela experiência. Uma afirmação que acomoda qualquer resultado não oferece
um teste capaz de refutá-la. Quanto mais precisas as consequências empíricas, mais claro pode ser o confronto.
Exemplo didático: a hipótese «todos os estudantes desta turma entregaram o trabalho»
prevê que cada estudante tenha uma entrega registrada. Uma ausência efetivamente verificada contraria
essa afirmação universal. Já encontrar várias entregas não prova que todos entregaram.
O teste recorre à estrutura do modus tollens: se a hipótese implica Q, mas Q
não ocorre nas condições previstas, é preciso rejeitar ou revisar a explicação testada. Se a hipótese
resiste a testes severos, fica corroborada: sustentada provisoriamente,
sem ter sido demonstrada como verdadeira para sempre.
§ 5 · Capítulo 4.5.2 · p. 99–100
Bunge: construir, testar e reajustar um modelo
Bunge organiza o método hipotético-dedutivo em cinco momentos, dando destaque à ligação
entre o modelo teórico, suas consequências e os dados da investigação:
Colocação do problema: reconhecer fatos relevantes, encontrar lacunas e formular uma questão investigável.
Construção do modelo teórico: selecionar fatores e propor hipóteses centrais e suposições auxiliares.
Dedução de consequências particulares: produzir previsões ou explicações de acontecimentos passados que possam ser confrontadas com dados.
Teste das hipóteses: planejar e executar observações, medições ou experimentos; analisar e interpretar os dados.
Introdução das conclusões na teoria: comparar resultados e previsões, reajustar o modelo e indicar novas pesquisas.
O último momento devolve os resultados à teoria. Um desencontro exige examinar tanto as
hipóteses quanto os procedimentos usados; um resultado favorável permite explorar desdobramentos.
§ 6 · Capítulo 4.6 · p. 100–106
Dialética: relações, processos e contradições
Na apresentação da dialética materialista feita no capítulo,
a realidade é compreendida como um conjunto de processos ligados entre si. Investigar significa
considerar a história, as relações e as contradições de um fenômeno, em vez de tratá-lo como algo fixo e isolado.
As autoras observam que diferentes intérpretes variam na quantidade e no nome das leis.
A síntese adotada no capítulo reúne quatro:
1. Ação recíproca
Os fenômenos dependem uns dos outros e se condicionam mutuamente. Uma escola, por exemplo,
precisa ser estudada em suas relações com famílias, trabalho, políticas públicas e condições materiais.
2. Mudança dialética ou negação da negação
As coisas se transformam e novas formas surgem pela superação das anteriores. A segunda negação
não é uma volta idêntica ao começo: o processo conserva e transforma elementos da situação inicial.
O capítulo ilustra isso com o grão que se torna planta e produz novos grãos.
3. Passagem da quantidade à qualidade
Mudanças acumuladas podem produzir uma mudança de estado ou de organização. O aquecimento da água,
sob determinadas condições de pressão, exemplifica a passagem de variações de temperatura a uma
transformação de estado. A mudança qualitativa depende das condições do processo.
4. Interpenetração dos contrários
As contradições internas participam do desenvolvimento: forças ou tendências opostas pertencem
à mesma realidade e entram em tensão. Na classificação do capítulo, a contradição é interna,
inovadora e envolve a unidade dos contrários.
§ 7 · Capítulo 4.7.1 a 4.7.8 · p. 106–111
Abordagem e procedimentos: dois níveis da pesquisa
Os métodos de abordagem orientam o raciocínio em nível mais amplo e abstrato:
indutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo e dialético. Os métodos de procedimento
organizam aspectos mais concretos da investigação em um domínio específico. Nas ciências sociais,
uma mesma pesquisa pode combinar vários procedimentos.
Histórico · origens e transformações
Investiga processos do passado para compreender instituições, formas de vida e relações atuais,
considerando o contexto em que surgiram. Exemplo didático: reconstruir a formação de uma rede escolar.
Comparativo · semelhanças e diferenças
Compara grupos, sociedades ou instituições, contemporâneos ou de épocas distintas, para reconhecer
regularidades e diferenças. Pode trabalhar com dados qualitativos e quantitativos.
Exemplo didático: comparar a organização de bibliotecas em duas escolas.
Monográfico · um caso em profundidade
Examina indivíduos, grupos, instituições ou comunidades em seus diversos aspectos.
O capítulo associa esse estudo aprofundado à busca de generalizações.
Exemplo didático: investigar uma escola em suas relações com a comunidade.
Estatístico · descrição e análise quantitativa
Representa fenômenos complexos por dados numéricos e analisa sua ocorrência, variação e relações.
Não serve apenas para descrever: também apoia o exame de hipóteses.
Exemplo didático: analisar a distribuição das taxas de frequência escolar.
Tipológico · tipos ideais
Associado a Weber, constrói tipos ideais a partir de características selecionadas e acentuadas.
O tipo ideal é um instrumento de comparação e compreensão dos casos concretos: não é uma média
estatística nem um modelo de perfeição moral.
Funcionalista · as partes e o todo
Examina as funções de instituições e práticas num sistema social.
O capítulo destaca a distinção de Merton entre funções manifestas, pretendidas
e reconhecidas, e latentes, consequências não pretendidas ou não reconhecidas.
Estruturalista · relações e modelos
Associado a Lévi-Strauss, parte do fenômeno concreto, constrói um modelo abstrato de suas relações
e retorna ao concreto para interpretá-lo. O foco recai nas relações entre os elementos.
O percurso é concreto → abstrato → concreto.
§ 8 · Capítulo 4.7.9 · p. 112
O quadro de referência liga teoria e investigação
O quadro de referência reúne a teoria e a metodologia que orientam
a interpretação da realidade. A metodologia engloba métodos de abordagem, métodos de procedimento
e técnicas. A escolha de cada parte precisa ser coerente com o problema e com o conjunto da pesquisa.
O capítulo oferece como exemplo o quadro marxista: teoria do materialismo histórico,
abordagem dialética, procedimentos histórico e comparativo e técnicas específicas de coleta de dados.
Também mostra que procedimentos podem ser combinados para examinar um objeto por diferentes ângulos.
Exemplo didático: uma pesquisa sobre a história e as diferenças de acesso à
biblioteca de duas escolas pode articular procedimentos histórico e comparativo, além de análise
estatística dos registros. Entrevistas e análise documental entram como técnicas.
A teoria escolhida orienta o significado que se atribui aos dados.
Exercício · revisão do capítulo
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre a teoria acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece abaixo do botão, com a nota,
as questões certas, erradas e em branco e uma explicação para cada resposta.