Pular para o conteúdo

Segundo período · 07 · Helenismo · Zenão, c. 300 a.C. — Marco Aurélio, 180 d.C.

Estoicismo

Um comerciante náufrago chega a Atenas, lê sobre Sócrates numa livraria e decide virar filósofo. A escola que Zenão funda dura quinhentos anos, vai de um escravo a um imperador e ensina uma coisa difícil: não é o mundo que nos perturba, é o que pensamos sobre ele.

  1. c. 300 a.C.Zenão de Cítio ensina no Pórtico Pintado (Stoá Poikíle) de Atenas — daí «estoicos».
  2. c. 230 a.C.Crisipo assume a escola e a sistematiza: «sem Crisipo, não haveria Pórtico».
  3. 155 a.C.Diógenes da Babilônia vai a Roma numa embaixada de filósofos. O estoicismo chega aos romanos.
  4. 65 d.C.Sêneca, ex-preceptor de Nero, é obrigado pelo imperador a se matar.
  5. c. 108 d.C.Arriano anota as aulas de Epicteto, ex-escravo: as Diatribes e o Enquirídio.
  6. c. 170–180 d.C.O imperador Marco Aurélio escreve, em campanha militar, as notas que chamamos de Meditações.

Já leu? Ir direto ao questionário ↓

§ 1 · O Pórtico

Um sistema inteiro

O estoicismo atravessa três fases. O antigo, em Atenas, com Zenão, Cleantes e Crisipo, constrói o sistema. O médio, com Panécio e Posidônio, o adapta à elite romana. O imperial, com Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, é o que mais lemos hoje — porque das duas primeiras fases quase tudo se perdeu.

A filosofia tem três partes, e os estoicos insistem que elas são inseparáveis. Diógenes Laércio (VII, 40) conserva a imagem:

Comparam a filosofia a um pomar: a lógica é o muro que o cerca, a física é o solo e as árvores, a ética são os frutos. Diógenes Laércio, Vidas, VII, 40

§ 2 · Física

Um cosmos vivo e racional

Para os estoicos, só existem corpos — só o que é corpo pode agir e sofrer ação. Mas a matéria não é inerte: é atravessada por um sopro (pneûma) quente e racional, que dá coesão a cada coisa e unidade ao todo. Esse princípio ativo tem muitos nomes: logos, natureza, deus, razão, destino.

O cosmos é, portanto, um ser vivo racional, governado por uma providência (prónoia). Tudo acontece por uma cadeia de causas, o destino (heimarméne). Periodicamente, o mundo se consome em fogo (ekpýrosis) e renasce idêntico — um eterno retorno.

§ 3 · Lógica

A mão de Zenão

Os estoicos criam uma lógica das proposições («se é dia, há luz; é dia; logo há luz») que só será redescoberta no século XIX. E respondem à pergunta pelo critério da verdade com a representação compreensiva (phantasía kataleptiké): uma impressão tão clara, vinda do próprio objeto, que não poderia vir de outro.

Diante de cada representação, damos ou recusamos o assentimento (synkatáthesis). Está em nosso poder. Cícero (Acadêmicos II, 145) conta como Zenão explicava isso com a mão:

Mão aberta: a representação. · Dedos levemente dobrados: o assentimento. · Punho fechado: a compreensão. · A outra mão apertando o punho: a ciência, que só o sábio tem.

§ 4 · Ética

Só a virtude é um bem

O fim é viver de acordo com a natureza — e, como a natureza humana é racional, viver de acordo com a razão, que é a mesma do cosmos. Tudo começa na oikeíosis: todo ser vivo se apega primeiro a si mesmo e ao que o conserva; o ser humano, ao crescer, descobre que o que mais lhe pertence é a razão.

Daí a tese mais radical: só a virtude é um bem e só o vício é um mal. Todo o resto — saúde, riqueza, beleza, reputação, a própria vida — é indiferente (adiáphoron) para a felicidade. Mas há indiferentes preferíveis (saúde, riqueza) e não preferíveis (doença, pobreza): é razoável escolher os primeiros, desde que não se confunda o que se escolhe com o que nos faz bons.

§ 5 · Paixões

Apátheia não é frieza

As paixões (páthe) — medo, desejo, prazer e aflição — não são forças cegas que vêm de outra parte da alma, como em Platão. São juízos falsos: o medo é julgar que um mal está por vir; a aflição, que um mal está presente. Como são juízos, podem ser corrigidos. O ideal é a apátheia, a ausência dessas paixões.

Mas o sábio não é uma pedra. No lugar das paixões ele tem as boas emoções (eupátheiai): alegria em vez de prazer, cautela em vez de medo, vontade racional em vez de desejo. E sente os primeiros movimentos involuntários — o susto com o trovão, o rosto que empalidece —, que Sêneca chama de pré-paixões. O que ele não faz é dar assentimento a eles.

§ 6 · Prática

O que depende de nós

Das coisas, umas dependem de nós, outras não. Dependem de nós o juízo, o impulso, o desejo, a aversão — numa palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, os bens, a reputação, os cargos — numa palavra, tudo o que não é obra nossa. Epicteto, Enquirídio, 1
Não são as coisas que perturbam os homens, mas os juízos sobre as coisas. Epicteto, Enquirídio, 5

Daí os exercícios que Hadot chamou de espirituais: a premeditação dos males (imaginar de manhã o que pode dar errado, para não ser pego de surpresa); o exame de consciência à noite, que Sêneca descreve no Da ira (III, 36); a visão do alto, em que Marco Aurélio olha a própria vida do tamanho que ela tem no cosmos.

E o cosmopolitismo: se todos participam da mesma razão, todos são concidadãos. O estoico é cidadão do mundo antes de ser cidadão de Atenas ou de Roma — ideia que vai alimentar o direito natural e, muito depois, os direitos humanos.

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.

1 Para os estoicos, o fim da vida humana é:

Viver em concordância com a natureza, que no ser humano é razão — a mesma razão que governa o cosmos. O prazer estável é a meta epicurista; suspender o juízo, a cética.

2 Para o estoicismo, saúde e riqueza são:

Só a virtude é um bem. Saúde e riqueza são indiferentes à felicidade, mas preferíveis; doença e pobreza, não preferíveis.

3 Segundo o Enquirídio de Epicteto, o que depende de nós?

Só o que é obra nossa — os juízos e movimentos da alma. Corpo, bens, reputação e cargos não dependem de nós.

4 «Não são as coisas que perturbam os homens, mas os juízos sobre as coisas.» A frase significa que:

Perder um cargo é um fato; julgar que isso é uma desgraça é um juízo nosso — e pode ser corrigido. É a base de toda a terapia estoica.

5 Como os estoicos entendem as paixões (medo, desejo, prazer, aflição)?

As paixões são juízos errados (o medo julga que um mal virá). O ideal é a apátheia — que não é insensibilidade: o sábio tem boas emoções, como a alegria.

6 A imagem do cão amarrado à carroça ilustra que:

O cão vai junto de qualquer jeito; a diferença é ir livremente ou ser arrastado. Para o estoico, liberdade é querer o que acontece.

7 Na imagem estoica do pomar, a ética corresponde:

A lógica é o muro que protege, a física é o solo e as árvores, a ética são os frutos — aquilo para o que tudo existe, mas que não nasce sem o resto.

8 O gesto de Zenão com a mão (aberta, dobrada, fechada, apertada pela outra) explica:

Representação (mão aberta), assentimento (dedos dobrados), compreensão (punho) e ciência (punho apertado pela outra mão), segundo Cícero.

9 O cosmopolitismo estoico afirma que:

Cada um é cidadão da própria cidade e, antes, do cosmos. A ideia alimenta o direito natural romano e, muito depois, os direitos humanos.

10 Qual destes estoicos foi escravo antes de se tornar filósofo?

Epicteto nasceu escravo em Hierápolis e foi libertado em Roma. Marco Aurélio era imperador; Sêneca, senador e preceptor de Nero.