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Segundo período · 08 · Ficha de estudo

A teoria política de Maquiavel

Um ex-funcionário demitido, preso e torturado escreve, no exílio, um livrinho para impressionar os mesmos Médici que o derrubaram. Sai dali a frase que separa a política moderna da antiga: olhar para o que os homens fazem, e não para o que deveriam fazer.

  1. 1469Nasce em Florença, governada de fato pelos Médici.
  2. 1494Carlos VIII invade a Itália. Os Médici são expulsos; Savonarola domina a república.
  3. 1498Savonarola é executado. Maquiavel vira secretário da Segunda Chancelaria.
  4. 1512–1513Os Médici voltam. Ele é demitido, preso, torturado e exilado. Escreve O Príncipe.
  5. 1527Morre em Florença, depois de escrever os Discursos, a Arte da guerra e as Histórias florentinas.
  6. 1532 · 1559O Príncipe é publicado postumamente. Em 1559 suas obras entram no Índice de livros proibidos.

§ 1 · Contexto

Uma Itália em pedaços

No começo do século XVI a Itália não é um país: é um mosaico de repúblicas, ducados, reinos e os Estados da Igreja, que se aliam e se traem enquanto França e Espanha disputam a península com exércitos enormes. Florença, uma república rica e militarmente fraca, sobrevive pagando soldados mercenários.

Maquiavel conhece isso por dentro. Como diplomata, negocia com o rei da França, com o imperador e com o papa, e acompanha de perto César Bórgia, filho do papa Alexandre VI, que conquista um Estado na Romanha em poucos anos e o perde quase tão rápido. Quando os Médici voltam, em 1512, ele perde tudo.

Os dois livros principais têm tons diferentes. O Príncipe (1513) é curto, dedicado a Lorenzo de Médici, e trata de como conquistar e manter um principado. Os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (c. 1513–1519) são longos e tratam de repúblicas, a partir da história de Roma.

§ 2 · O Príncipe, XV

A verdade efetiva da coisa

Durante séculos, os livros escritos para governantes — os «espelhos de príncipes» — descreviam o soberano ideal: justo, generoso, piedoso, clemente. Maquiavel rompe com essa tradição de forma explícita no capítulo XV, e a ruptura atinge também as cidades ideais dos antigos.

Muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca foram vistos nem conhecidos na realidade; porque há tanta distância entre como se vive e como se deveria viver, que aquele que deixa o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a sua ruína que a sua preservação. Maquiavel, O Príncipe, XV

Por isso ele diz que prefere ir atrás da verità effettuale della cosa, a verdade efetiva da coisa, e não da imaginação dela. A política passa a ser estudada como ela funciona — com exemplos históricos, comparações, regras que valem «na maior parte das vezes».

§ 3 · O Príncipe, VI–VII e XXV

Virtù e fortuna

Todo o livro gira em torno de duas forças. A fortuna é o acaso, as circunstâncias que ninguém controla. A virtù é a capacidade de agir sobre elas: energia, decisão, inteligência, sobretudo a habilidade de perceber o que o momento exige e mudar de conduta conforme os tempos.

No capítulo XXV, Maquiavel calcula que a fortuna é árbitro de metade das nossas ações e deixa a outra metade a nós. Ela é como um rio que, quando transborda, arrasta tudo; mas, em tempos calmos, é possível construir diques e barragens. Quem se prepara limita o estrago.

Os capítulos VI e VII mostram os dois caminhos para o poder novo. Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu fundaram Estados pela própria virtù e pelas próprias armas; tiveram da fortuna só a ocasião. César Bórgia subiu pela fortuna e pelas armas alheias — as do pai papa — e, apesar de agir com grande habilidade, caiu quando o pai morreu.

§ 4 · O Príncipe, VIII e XV–XIX

Aprender a não ser bom

A frase mais escandalosa do livro está no mesmo capítulo XV: o príncipe que quer se manter precisa aprender a poder não ser bom, e usar ou não usar isso conforme a necessidade. Num mundo em que muitos não são bons, quem é bom sempre se arruína.

Amado ou temido?

O ideal seria ser as duas coisas; como é difícil, é mais seguro ser temido do que amado (XVII). O amor depende dos súditos, que são «ingratos, volúveis, simuladores» e o abandonam no perigo; o medo depende do príncipe. Mas há um limite: ele deve evitar ser odiado, e o ódio vem sobretudo de tocar nos bens e nas mulheres dos súditos — porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do patrimônio.

A raposa e o leão

Há duas maneiras de combater: pelas leis, que é próprio do homem, e pela força, que é própria dos animais. Como a primeira muitas vezes não basta, o príncipe precisa saber usar as duas, e imitar dois animais: o leão, que espanta os lobos, e a raposa, que percebe as armadilhas (XVIII). E não precisa ter todas as qualidades boas — precisa parecer tê-las, porque os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos: todos veem o que você parece, poucos sentem o que você é.

§ 5 · O Príncipe, IX, XII–XIV e XXVI

Boas armas, boas leis, e o povo

Os fundamentos de todo Estado, diz o capítulo XII, são boas leis e boas armas — e não pode haver boas leis onde não há boas armas. As tropas mercenárias são inúteis e perigosas: desunidas, ambiciosas, sem disciplina, corajosas entre amigos e covardes diante do inimigo. O príncipe precisa de armas próprias, formadas por cidadãos ou súditos.

O capítulo IX introduz uma ideia que vai crescer nos Discursos: em toda cidade há dois humores opostos. Os grandes desejam comandar e oprimir; o povo deseja apenas não ser comandado nem oprimido. O desejo do povo é mais honesto, e por isso o príncipe sábio se apoia no povo, que é muitos e não pode ser eliminado, e não nos grandes.

O livro termina com uma exortação (XXVI): que um príncipe novo tome a Itália nas mãos e a liberte dos «bárbaros» estrangeiros. Lido assim, o manual frio vira um texto patriótico.

§ 6 · Discursos sobre Tito Lívio

O Maquiavel republicano

Quem só leu O Príncipe leva um susto com os Discursos. Ali, o regime preferido é a república, e o modelo é Roma. Maquiavel retoma a ideia de uma constituição mista — cônsules, senado e tribunos da plebe, isto é, um pouco de monarquia, de aristocracia e de democracia (I.2).

E então faz uma afirmação que ninguém antes dele tinha feito assim: os tumultos entre a plebe e o senado, que todos condenavam como desordem, foram a causa da liberdade e da grandeza de Roma (I.4). Das lutas entre os dois humores nasceram as leis que protegeram a liberdade.

Nos Discursos também aparecem a tese de que o povo é melhor guardião da liberdade que os grandes (I.5), a análise da religião romana como instrumento que dava coesão e coragem aos cidadãos (I.11–15) e a ideia de que as repúblicas precisam, de tempos em tempos, retornar aos seus princípios para se renovar (III.1).

§ 7 · Recepção

Conselheiro de tiranos ou mestre de republicanos?

Bastaram poucas décadas para «maquiavélico» virar sinônimo de pérfido. A Igreja proibiu seus livros em 1559, e no século XX Leo Strauss — da bibliografia básica — ainda o chamava de «mestre do mal». Benedetto Croce leu nele outra coisa: a descoberta de que a política tem leis próprias, autônomas em relação à moral.

Rousseau inverteu a leitura escandalosa. No Contrato social (III.6), diz que Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições aos povos, e que O Príncipe é «o livro dos republicanos»: ao expor como os príncipes agem, ensina os povos a se defender deles.

Exercício

Questionário

Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.

1 No capítulo XV de O Príncipe, Maquiavel diz que prefere seguir:

A verità effettuale della cosa: estudar como se vive, e não como se deveria viver. As «repúblicas imaginadas» — Platão incluído — são justamente o que ele recusa.

2 O que significa virtù em Maquiavel?

Virtù é energia, decisão e inteligência política diante da fortuna. Não tem relação com bondade — por isso muitos tradutores deixam a palavra em italiano. A sorte de nascer bem é fortuna, não virtù.

3 No capítulo XXV, a fortuna é comparada a um rio que transborda. A lição da imagem é:

A fortuna é árbitro de metade das nossas ações e deixa a outra metade a nós. Diques e barragens, construídos antes da cheia, são a virtù em ação.

4 «Todos os profetas armados venceram e os desarmados se arruinaram.» Qual é o exemplo de profeta desarmado?

Savonarola dominou Florença pela pregação, mas, quando o povo deixou de acreditar nele, não tinha força para sustentar o poder. Moisés e Rômulo são exemplos de fundadores armados (cap. VI).

5 Segundo o capítulo XVII, é mais seguro para o príncipe ser:

O ideal seria ser amado e temido; não sendo possível, temido. O amor depende dos súditos, o medo depende do príncipe. Mas o ódio, que nasce de tomar bens e mulheres dos súditos, deve ser evitado a todo custo.

6 Na imagem do capítulo XVIII, a raposa e o leão representam:

Como combater só pelas leis muitas vezes não basta, o príncipe precisa usar a parte animal: o leão sozinho cai nas armadilhas, a raposa sozinha não se defende dos lobos. Ele precisa das duas.

7 Sobre a frase «os fins justificam os meios», é correto dizer que:

É uma fórmula atribuída a ele depois. O capítulo XVIII diz que, onde não há tribunal a que recorrer, os homens julgam os príncipes pelo resultado — uma observação sobre como se julga, não uma regra moral.

8 Por que Maquiavel condena as tropas mercenárias?

Boas leis exigem boas armas (cap. XII), e boas armas são as próprias, de cidadãos ou súditos. Maquiavel chegou a organizar uma milícia florentina em 1506.

9 Quais são os dois «humores» presentes em toda cidade, segundo Maquiavel?

É a divisão social básica (cap. IX; Discursos I.4–5). O desejo do povo é mais honesto, e por isso o príncipe deve se apoiar nele. A divisão da alma em racional e apetitiva é de Platão.

10 Nos Discursos (I.4), como Maquiavel avalia os tumultos entre a plebe e o senado em Roma?

Das lutas entre os dois humores nasceram leis favoráveis à liberdade. É a grande novidade em relação a Platão e Aristóteles, para quem o conflito civil é doença da cidade.

11 Qual regime é preferido por Maquiavel nos Discursos sobre Tito Lívio?

Cônsules, senado e tribunos misturam monarquia, aristocracia e democracia (I.2). O povo é o melhor guardião da liberdade (I.5). Por isso se fala num Maquiavel republicano.

12 Quem disse que O Príncipe é «o livro dos republicanos», porque ensina os povos fingindo ensinar os príncipes?

Rousseau, no Contrato social (III.6). Strauss fica no extremo oposto: chamou Maquiavel de «mestre do mal».