Primeiro período · Éticas · Friedrich Nietzsche · 1844 — 1900
Ética de Nietzsche
Qual é o valor dos nossos valores? Genealogia da moral, ressentimento,
criação de valores e afirmação da vida: oito seções de estudo e 10 questões ao final.
Nietzsche pergunta pelas condições em que os valores morais surgiram e pelo valor desses
próprios valores. A genealogia investiga sua formação histórica,
suas motivações e seus efeitos: favorecem o crescimento da vida ou produzem empobrecimento
e negação? (Genealogia da moral, prefácio, § 6).
Por isso, estudar sua ética envolve uma crítica das avaliações herdadas. Não basta aceitar
uma regra porque ela é antiga ou reconhecida como boa. Também não basta descobrir sua origem:
é preciso examinar o que ela faz e que maneira de viver expressa.
§ 2 · Dois modos de avaliar
Bom e ruim; bom e mau
Na primeira dissertação da Genealogia (§§ 2, 10–11), a avaliação nobre parte
da afirmação de si: chama a si mesma de boa e distingue o que considera inferior como ruim.
A avaliação do ressentimento parte da condenação do outro como mau e se define como boa por oposição.
Os pares bom/ruim e bom/mau têm, assim, sentidos diferentes.
A distinção envolve hierarquias e conflitos de poder, não apenas dois nomes para o mesmo julgamento.
§ 3 · A reação que cria valores
O ressentimento
O ressentimento é uma hostilidade persistente que, impedida
de se descarregar em uma reação direta, produz uma vingança imaginária e passa a criar valores
(Genealogia, I, § 10). É mais que uma irritação passageira.
Nesse modo de avaliar, condenar o adversário torna-se o ponto de partida para afirmar o próprio
valor. A criação é reativa: depende do inimigo contra o qual se define.
§ 4 · A interiorização
Culpa e má consciência
Na segunda dissertação, Nietzsche relaciona a formação da culpa a práticas de dívida,
obrigação e punição. Explora a proximidade, em alemão, entre os termos para culpa e dívidas
(Genealogia, II, §§ 4–5).
A má consciência surge quando impulsos que não encontram
saída para fora são voltados contra o próprio sujeito. A imposição da vida social participa
dessa interiorização (II, §§ 16–17). Não se trata simplesmente de alguém perceber um erro:
trata-se de explicar a formação de uma relação de sofrimento consigo.
§ 5 · Dar sentido ao sofrimento
O ideal ascético
O ideal ascético recebe significados diferentes conforme quem
o adota: artista, filósofo ou sacerdote. Nietzsche examina essas diferenças na terceira dissertação
da Genealogia, em vez de reduzir toda disciplina pessoal a uma única prática.
Na interpretação sacerdotal, o sofrimento recebe sentido por meio da culpa e de uma orientação
que desvaloriza aspectos da vida. O ideal oferece uma resposta à falta de sentido, mas cobra
o preço de dirigir a vontade contra a vida (III, §§ 13, 15 e 28).
§ 6 · A crise dos fundamentos
Morte de Deus e niilismo
A imagem da morte de Deus expressa a perda de autoridade
do fundamento religioso que sustentava valores e orientações da cultura europeia
(A gaia ciência, §§ 125 e 343). Não é o relato da morte física de uma pessoa.
O problema do niilismo aparece quando os valores que davam
sentido à existência deixam de convencer. A crise abre a pergunta pela possibilidade de
avaliar e criar de outro modo; não oferece uma autorização automática para qualquer conduta.
§ 7 · Uma tarefa filosófica
Criação de valores e vontade de potência
A transvaloração envolve reavaliar os valores herdados e
transformar a maneira de valorar. Em Além do bem e do mal (§ 211), Nietzsche
apresenta os filósofos do futuro como criadores e legisladores de valores.
A tarefa não se resume a trocar uma lista de proibições por seu contrário.
A vontade de potência ajuda a pensar a atuação de forças
que interpretam, organizam e procuram expandir suas possibilidades
(Além do bem e do mal, § 13; Genealogia, II, § 12).
O conceito não se reduz à busca de um cargo político: alcança relações entre forças
e modos de formação da vida.
§ 8 · A afirmação
Amor fati e eterno retorno
Amor fati, amor ao destino, expressa a busca de afirmar a vida,
em vez de depender da negação do que aconteceu (A gaia ciência, § 276).
No § 341, o eterno retorno aparece como a hipótese de reviver
a mesma vida, com cada experiência, incontáveis vezes.
Nesta passagem, a hipótese permite perguntar pela capacidade de afirmar a própria existência.
Não é uma receita para obter conforto permanente nem uma prova científica apresentada nesse aforismo.
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre a crítica da moral e a ética de Nietzsche.
Marque uma alternativa em cada questão e clique em Corrigir. Ao final aparecem
a nota, as questões certas, erradas e em branco, além do gabarito comentado.
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