Pular para o conteúdo

Primeiro período · 04 · Metafísicas · David Hume, 1711 — 1776

Hume contra a metafísica

Aristóteles construiu a metafísica sobre substância, causa e um primeiro motor. Dois mil anos depois, um escocês de vinte e poucos anos fez uma pergunta simples a cada uma dessas palavras: de que experiência veio essa ideia? Para muitas delas, não achou resposta. Esta ficha mostra o método de Hume, o que ele faz com a causalidade, com a substância e com o eu — e por que terminou mandando certos livros para o fogo.

  1. 1711Nasce em Edimburgo, na Escócia.
  2. 1739–1740Publica o Tratado da natureza humana. Ele mesmo diria que o livro «saiu natimorto da gráfica».
  3. 1748Investigação sobre o entendimento humano: reescreve a parte central do Tratado em versão mais curta e clara.
  4. 1754–1762História da Inglaterra, que lhe dá fama em vida — mais como historiador que como filósofo.
  5. 1776Morre em Edimburgo.
  6. 1779Saem, póstumos, os Diálogos sobre a religião natural.
  7. 1783Kant, nos Prolegômenos, diz que Hume o despertou do «sono dogmático».

Já leu? Ir direto ao questionário ↓

§ 1 · O método

Impressões e ideias

Hume é empirista: todo o material do pensamento vem da experiência. Ele chama tudo o que passa pela mente de percepção e divide as percepções em duas classes, que se distinguem só pelo grau de força e vivacidade. As impressões são as vivas: ver o vermelho, sentir dor, ter raiva. As ideias são as cópias mais fracas: lembrar o vermelho, imaginar a dor.

Daí o princípio da cópia: toda ideia simples deriva de uma impressão simples que a ela corresponde. Podemos juntar ideias e imaginar uma montanha de ouro, mas «ouro» e «montanha» vieram de impressões. Um cego de nascença não tem a ideia de cor.

Quando suspeitarmos que um termo filosófico está sendo empregado sem nenhum significado ou ideia, basta perguntar: de que impressão deriva essa suposta ideia? Se for impossível indicar alguma, isso confirmará nossa suspeita. Hume, Investigação sobre o entendimento humano, seção 2

§ 2 · O garfo de Hume

Relações de ideias e questões de fato

Na seção 4 da Investigação, Hume divide todos os objetos da razão humana em dois tipos — divisão que os comentadores apelidaram de garfo de Hume:

  • Relações de ideias: geometria, álgebra, aritmética. «Três vezes cinco é a metade de trinta.» São conhecidas só pelo pensamento, sem depender do que existe no mundo, e negá-las é contradição.
  • Questões de fato: tudo o que diz respeito ao que existe. «O sol nascerá amanhã.» Seu contrário é sempre possível: «o sol não nascerá amanhã» não é contraditório, é só falso — e só a experiência diz qual dos dois acontece.

O golpe na metafísica está aqui. As teses de Aristóteles sobre substância, causas primeiras e motor imóvel pretendem falar do que existe — logo, seriam questões de fato. Mas pretendem ser conhecidas só pela razão, com necessidade — como relações de ideias. O garfo não deixa terceira ponta.

§ 3 · Causalidade

Nunca vemos a conexão

Todo raciocínio sobre questões de fato, diz Hume, se apoia na relação de causa e efeito: do fogo inferimos o calor; da carta, o amigo que a escreveu. Mas de onde vem esse conhecimento? Não da razão pura: Adão, recém-criado, por mais racional que fosse, não poderia inferir da transparência e fluidez da água que ela o afogaria. Cada efeito é um evento distinto da causa, e nada na causa o contém.

Então da experiência. Mas o que a experiência mostra? Uma bola de bilhar bate na outra, e a segunda se move. Vemos três coisas: contiguidade (as bolas se tocam), prioridade (o choque vem antes do movimento) e, repetindo, conjunção constante (sempre foi assim). O que nunca vemos é a conexão necessária — a força, o poder, o «tem de» que ligaria uma coisa à outra.

§ 4 · O hábito

O costume é o grande guia da vida

Se a ideia de conexão necessária não vem de nenhuma impressão dos objetos, ela é vazia? Hume procura de onde ela vem e acha: vem de dentro. Depois de ver muitas vezes o choque seguido do movimento, a mente, ao ver o choque, sente-se levada a esperar o movimento. Essa determinação da mente — o hábito, o costume — é a impressão de que a ideia de necessidade é cópia. A necessidade está em nós, não nas coisas.

O costume é, pois, o grande guia da vida humana. É o único princípio que torna útil a nossa experiência e nos faz esperar, no futuro, uma série de eventos semelhantes aos que apareceram no passado. Hume, Investigação sobre o entendimento humano, seção 5

Isso não quer dizer que devamos parar de confiar nas causas. Hume repete que ninguém consegue viver como cético radical: «a natureza é forte demais para o princípio». Continuamos esperando que o pão alimente. O que muda é o estatuto dessa crença — natural e indispensável, mas não demonstrada pela razão.

§ 5 · Substância e eu

Um feixe de percepções

O mesmo teste derruba a substância. De que impressão viria a ideia de um suporte por trás das qualidades? Da maçã temos impressões de vermelho, de doce, de redondo, de liso. A substância «maçã», diz o Tratado (I, 1, 6), não é mais que uma coleção de ideias simples que a imaginação une e a que damos um nome. Não há impressão do substrato.

E vale também para a substância que cada um julga conhecer melhor — o próprio eu:

De minha parte, quando penetro mais intimamente no que chamo de eu mesmo, sempre tropeço numa ou noutra percepção particular — de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer. Nunca consigo surpreender a mim mesmo sem uma percepção. Hume, Tratado da natureza humana, I, 4, 6

O eu, conclui Hume, não passa de «um feixe ou coleção de diferentes percepções, que se sucedem com inconcebível rapidez e estão em perpétuo fluxo e movimento». A identidade pessoal é, como a da maçã, obra da imaginação que liga percepções semelhantes e causalmente encadeadas.

§ 6 · O veredito

«Lancem-no às chamas»

A Investigação termina com uma das passagens mais citadas da filosofia moderna — a aplicação direta do garfo a uma biblioteca:

Se tomarmos em nossas mãos qualquer volume — de teologia ou de metafísica escolástica, por exemplo —, perguntemos: contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou número? Não. Contém algum raciocínio experimental sobre questões de fato e existência? Não. Lancem-no então às chamas, pois não pode conter senão sofismas e ilusão. Hume, Investigação sobre o entendimento humano, seção 12

O alvo não é todo pensamento filosófico: é a metafísica abstrusa, a que pretende conhecer, pela razão sozinha, realidades além de toda experiência possível. Hume quer substituí-la por uma «ciência do homem» — uma investigação dos limites e do funcionamento do entendimento. Sua posição final é um ceticismo mitigado: limitar a investigação ao que está ao alcance da experiência, sem o ceticismo total, que a vida comum desmente a cada minuto.

As consequências foram longas. Kant aceitou que a causalidade não vem da experiência, mas concluiu o oposto de Hume: ela seria uma forma que a própria mente impõe à experiência — e com isso tentou refundar a metafísica sobre a pergunta pelos juízos sintéticos a priori. No século XX, os positivistas lógicos do Círculo de Viena retomaram o garfo quase letra por letra: um enunciado que não é nem analítico nem verificável pela experiência não tem sentido.

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.

1 Para Hume, impressões e ideias se distinguem:

Ver o vermelho é impressão; lembrá-lo é ideia. A diferença é de grau, não de origem: Hume nega ideias inatas, e as ideias vêm todas das impressões.

2 O «princípio da cópia» serve, na crítica de Hume, como:

«De que impressão deriva essa suposta ideia?» Se nenhuma for indicada, a palavra não tem significado — é assim que Hume ataca termos como substância e conexão necessária.

3 Pelo garfo de Hume, «três vezes cinco é a metade de trinta» e «o sol nascerá amanhã» são, respectivamente:

A aritmética se conhece só pelo pensamento e sua negação é contraditória. Que o sol nasça é um fato sobre o mundo, conhecido só pela experiência.

4 Por que «o sol não nascerá amanhã» não é, para Hume, uma contradição?

O critério é lógico: podemos conceber clara e distintamente o sol não nascendo. É falso, talvez, mas não absurdo — e por isso só a experiência decide.

5 No exemplo das bolas de bilhar, o que Hume diz que não observamos?

Contiguidade, prioridade e conjunção constante se observam. O poder ou a necessidade que ligaria uma coisa à outra nunca aparece.

6 O chamado «problema da indução» consiste em que:

Não é relação de ideias (um mundo que mude não é contraditório), e prová-la pela experiência seria usar o passado para garantir o próprio passado.

7 Segundo Hume, de onde vem a nossa ideia de conexão necessária?

A impressão de que a ideia é cópia é interna: a determinação da mente pelo costume. A necessidade está em nós, não nas coisas.

8 Ao procurar o «eu» dentro de si, Hume conclui que ele é:

«Sempre tropeço numa ou noutra percepção particular.» Não há impressão de um eu por trás das percepções. A alternativa d lembraria Descartes.

9 No fim da Investigação, Hume manda «lançar às chamas» o livro que:

É o garfo aplicado a uma biblioteca. O critério não é o assunto nem a época: é se o livro cai em alguma das duas pontas.

10 Qual foi a reação de Kant à crítica de Hume?

Kant concorda que a causalidade não vem da experiência, mas faz dela uma forma que a mente impõe à experiência. Os Prolegômenos (1783) contam o «despertar».