Segundo período · 07 · Helenismo · Pirro, c. 360 a.C. — Sexto Empírico, c. 200 d.C.
Ceticismo
Para cada argumento existe outro de mesma força. O cético não conclui que nada é verdadeiro —
isso também seria uma tese. Ele simplesmente para de afirmar, e descobre, quase por acaso, que
deixou de se atormentar.
c. 360 a.C.Pirro nasce em Élis. Mais tarde acompanha Alexandre até a Índia, onde conhece os «gimnosofistas».
séc. III a.C.Tímon de Fliunte, discípulo de Pirro, põe por escrito a atitude do mestre, que nada escreveu.
c. 268 a.C.Arcesilau assume a Academia de Platão e a torna cética: começa a Nova Academia.
155 a.C.Carnéades, em Roma, discursa um dia a favor da justiça e no dia seguinte contra ela.
séc. I a.C.Enesidemo rompe com a Academia e refunda o pirronismo, com os dez modos.
c. 200 d.C.Sexto Empírico, médico, escreve as Hipotiposes pirronianas, a exposição que chegou até nós.
Sképsis quer dizer exame, investigação. O cético (skeptikós) não é quem
nega tudo: é quem examina e ainda não encontrou. Sexto Empírico abre as Hipotiposes pirronianas
com uma divisão:
Quem investiga alguma coisa ou a encontra, ou nega que se possa encontrá-la, ou continua investigando.
Sexto Empírico, Hipotiposes pirronianas, I, 1–4
Os dogmáticos (Aristóteles, Epicuro, os estoicos) dizem ter encontrado a verdade.
Os acadêmicos dizem que ela não pode ser encontrada. Os céticos continuam
procurando. Para Sexto, dizer «nada se pode conhecer» já é um dogma — negativo, mas dogma.
§ 2 · Pirro
Três perguntas
Pirro não escreveu nada. Seu discípulo Tímon resumiu o ensinamento em três perguntas, que conhecemos por
Aristocles, citado por Eusébio:
Como são as coisas por natureza? Indiferenciadas, instáveis e indecidíveis. ·
Que atitude devemos ter diante delas? Não confiar nem nos sentidos nem nas opiniões;
ficar sem opinião e sem inclinação. · O que resulta disso? Primeiro a
aphasía, não afirmar nada; depois a ataraxia.
§ 3 · A Academia
Contra os estoicos
Por volta de 268 a.C., Arcesilau dirige a Academia e a volta contra os estoicos. Eles
diziam ter um critério de verdade, a representação compreensiva. Arcesilau mostra que para toda representação
verdadeira pode haver uma falsa indistinguível — gêmeos, sonhos, ilusões. Logo, o sábio deve
suspender o juízo sobre tudo. Ele se via como herdeiro do Sócrates que só sabia
que nada sabia — mas ia além: nem isso afirmava.
Carnéades leva o método ao extremo. Em 155 a.C., numa embaixada a Roma, faz um dia um
discurso brilhante a favor da justiça e, no dia seguinte, outro igualmente brilhante contra ela. Catão,
escandalizado, pede que os filósofos sejam mandados de volta. Para poder agir, Carnéades propõe o
persuasivo (pithanón): seguir o que parece mais convincente,
sem afirmar que é verdadeiro.
§ 4 · O método
Isostenia, epoché, ataraxia
Sexto define o ceticismo como uma capacidade: opor aparências e pensamentos de todos os modos
possíveis. O caminho tem três passos:
1. Isostenia (isosthéneia): diante de cada argumento, encontrar outro de força igual.
O mel parece doce; ao doente, parece amargo. ·
2. Epoché: como nenhum lado pesa mais, suspende-se o juízo — nem afirmo, nem nego. ·
3. Ataraxia: e então, sem que se procure, vem a tranquilidade.
Ao pintor Apeles teria acontecido o mesmo. Pintando um cavalo, queria representar a espuma da boca
e não conseguia; desistiu e atirou contra o quadro a esponja em que limpava os pincéis — e a marca da
esponja produziu a imagem da espuma.
Sexto Empírico, Hipotiposes pirronianas, I, 28
As fórmulas céticas — «não mais isto que aquilo», «suspendo o juízo», «nada determino» — não são
teses. Relatam o estado de quem fala, como um diário. Sexto as compara a purgantes, que saem do corpo
junto com o que expulsam.
§ 5 · Os modos
Dez modos e mais cinco
Os dez modos de Enesidemo reúnem as razões para suspender o juízo sobre as aparências:
as diferenças entre os animais, entre os homens, entre os sentidos, entre as circunstâncias (saúde, sono, idade),
as posições e distâncias, as misturas, as quantidades, a relatividade, a frequência e, por fim, os
costumes e as leis — o que é vergonhoso num povo é honroso em outro.
Os cinco modos de Agripa atacam qualquer tentativa de justificar uma tese:
Desacordo: sobre tudo há divergência. · Regressão ao infinito: cada prova
precisa de outra prova. · Relatividade: tudo aparece em relação a algo. ·
Hipótese: parar num ponto sem prova é arbitrário. · Círculo (dialelo):
provar A por B e B por A.
§ 6 · Viver
Dá para viver sem crenças?
A objeção clássica é a apraxia: quem não acredita em nada não consegue agir —
não come, porque não acredita que o pão alimenta. Sexto responde que o cético não nega os
fenômenos, o que aparece; suspende o juízo só sobre o que os dogmáticos dizem
estar por trás deles. Que o mel me parece doce, não discuto; se é doce por natureza, não sei.
E vive seguindo os fenômenos, por quatro guias (Hipotiposes I, 23–24): a orientação
da natureza (sentimos e pensamos); a necessidade das afecções (a fome leva a comer);
a tradição das leis e costumes (o cético participa da religião e da vida da cidade);
e o ensino das técnicas (Sexto era médico).
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das
questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.