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Segundo período · 07 · Pré-socráticos · c. 540 — c. 480 a.C.

Heráclito de Éfeso

Os antigos o chamavam de o Obscuro. Escrevia em frases curtas, quase oráculos, e dizia que a maioria das pessoas vive dormindo de olhos abertos. O que ele queria que acordassem para ver: uma medida comum, o logos, regendo um mundo feito de tensão entre opostos.

  1. c. 540 a.C.Nasce em Éfeso, na Jônia, numa família aristocrática. Teria renunciado ao título hereditário de «rei» em favor do irmão.
  2. 504–501 a.C.Período de maturidade (akmé), segundo Diógenes Laércio.
  3. séc. V a.C.Deposita seu livro no templo de Ártemis, em Éfeso. Ganha o apelido de skoteinós, «o Obscuro».
  4. c. 480 a.C.Data provável da morte.
  5. séc. IV a.C.Platão, no Crátilo, resume sua doutrina como «tudo flui» — fórmula que não é dele.

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§ 1 · O logos

Uma medida que é de todos

Diferente dos milésios, de Heráclito sobraram mais de cem fragmentos — frases curtas, de propósito enigmáticas. O primeiro deles abre com a palavra central:

Deste logos, que é sempre, os homens se mostram incapazes de compreender, tanto antes de ouvi-lo quanto depois de o terem ouvido pela primeira vez. Heráclito, DK 22 B1

Logos quer dizer palavra, discurso, cálculo, razão, proporção. Em Heráclito é a lei que organiza todas as mudanças, a medida segundo a qual tudo acontece. E é comum: não pertence a ninguém. «Não me ouvindo a mim, mas ao logos, é sábio concordar que tudo é um» (B50). O problema é que «embora o logos seja comum, a maioria vive como se tivesse um entendimento próprio» (B2) — como gente que dorme, cada um no seu sonho particular.

§ 2 · O fogo

Acendendo-se em medidas

Este cosmos, o mesmo para todos, nenhum dos deuses nem dos homens o fez, mas sempre foi, é e será: fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas. Heráclito, DK 22 B30

O fogo é a imagem mais perfeita do que Heráclito quer dizer. Uma chama parece uma coisa estável, mas só existe enquanto consome e transforma: é sempre outra e continua a mesma. E tudo se troca por fogo, «como as mercadorias por ouro e o ouro por mercadorias» (B90).

§ 3 · Opostos

A guerra é pai de todas as coisas

A tese mais famosa de Heráclito é a unidade dos opostos. O que parece contrário é, visto de perto, uma coisa só, ou duas coisas que não existem uma sem a outra:

«O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo» (B60). «A água do mar é a mais pura e a mais poluída: para os peixes, potável e salutar; para os homens, impotável e mortal» (B61). «A doença torna a saúde agradável; a fome, a saciedade; o cansaço, o descanso» (B111).

A guerra é pai de todas as coisas, rei de todas; a uns mostrou deuses, a outros homens; a uns fez escravos, a outros livres. Heráclito, DK 22 B53

Pólemos, a guerra, é o nome dessa tensão. E a tensão não destrói a ordem: é a ordem. Sem conflito entre quente e frio, não há estações. Por isso Heráclito critica Homero, que desejou o fim da discórdia entre deuses e homens: ele estaria desejando, sem saber, o fim do mundo. «A justiça é discórdia» (B80).

§ 4 · O rio

Outras e outras águas

Sobre os que entram nos mesmos rios, outras e outras águas correm. Heráclito, DK 22 B12

Repare: os rios são os mesmos; as águas é que são outras. O rio só continua sendo rio porque as águas não param de mudar — se parassem, virava lago. A identidade não é contrária à mudança: depende dela. É uma tese mais fina que «nada permanece».

Daí o contraste clássico com Parmênides, para quem o ser é imóvel e a mudança é ilusão. Heráclito e Parmênides dividem o campo, e os filósofos seguintes — Empédocles, Demócrito, Platão, Aristóteles — vão tentar conciliar os dois.

§ 5 · Conhecer e viver

Muito saber não ensina a pensar

Heráclito despreza a erudição sem compreensão: «Muito saber (polymathíe) não ensina a ter inteligência; senão teria ensinado Hesíodo e Pitágoras, e também Xenófanes e Hecateu» (B40). Ver e ouvir são valiosos, mas «olhos e ouvidos são más testemunhas para quem tem almas bárbaras» (B107): os sentidos só servem a quem sabe interpretá-los.

O caminho é para dentro — «investiguei a mim mesmo» (B101) — e para o comum: «o povo deve lutar pela lei como pela muralha» (B44), porque a lei da cidade se alimenta da lei divina, o logos. E a frase mais curta:

O caráter, para o homem, é o seu destino. Heráclito, DK 22 B119 (éthos anthrópoi daímon)

Exercício

Questionário

10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.

1 Em Heráclito, o logos é:

O logos é comum e eterno (B1, B2, B50). A maioria vive «como se tivesse entendimento próprio», como quem dorme. E o cosmos, segundo B30, nenhum deus fez.

2 Segundo o fragmento B30, o cosmos é:

«Nenhum dos deuses nem dos homens o fez, mas sempre foi, é e será: fogo sempre vivo». O decisivo é a expressão «em medidas».

3 Qual destas frases é, com mais segurança, um fragmento autêntico de Heráclito?

B12 é a versão considerada autêntica. «Tudo flui» é o resumo de Platão; «duas vezes no mesmo rio» é a paráfrase de Plutarco; «só sei que nada sei» nem é dele.

4 O fragmento sobre a água do mar — potável e salutar para os peixes, impotável e mortal para os homens — ilustra:

A mesma água é pura e poluída ao mesmo tempo, dependendo de para quem. Os opostos não estão em coisas separadas.

5 Ao dizer que «a guerra é pai de todas as coisas», Heráclito afirma que:

Pólemos é o conflito entre contrários, que é a própria ordem. Por isso ele critica Homero por desejar o fim da discórdia: seria o fim do mundo.

6 A imagem do arco e da lira (B51) expressa:

A corda só funciona porque é puxada em sentidos contrários. O que diverge concorda consigo mesmo.

7 No fragmento B40, Heráclito critica Hesíodo, Pitágoras, Xenófanes e Hecateu porque:

Erudição não é compreensão. O que importa é captar o logos que une tudo, e não somar informações.

8 Qual era o apelido de Heráclito na Antiguidade?

Skoteinós, o Obscuro, pelo estilo enigmático. «Parteiro» lembra a maiêutica de Sócrates; «atomista», Demócrito.

9 Na leitura do fragmento B12 (os rios), qual conclusão é a mais fiel ao texto?

O fragmento diz que os rios são os mesmos e as águas, outras. A estabilidade é feita de mudança. A alternativa c é a posição de Parmênides.

10 «Éthos anthrópoi daímon» (B119) costuma ser traduzido como:

O daímon — o destino, a sorte — de cada um é o seu caráter. «Medida de todas as coisas» é de Protágoras; «tudo está cheio de deuses», de Tales; «conhece-te a ti mesmo», a inscrição de Delfos.