Primeiro período · 04 · Metafísicas · Aristóteles, 384 — 322 a.C.
A metafísica de Aristóteles
Parmênides deixou um problema: se o ser não pode vir do não-ser, como alguma coisa muda?
Aristóteles responde sem negar o mundo que vemos. Distingue os sentidos de «ser», põe no centro a
substância, explica a mudança pela passagem da potência ao ato e chega, no
fim, a um primeiro motor que move sem ser movido. Esta ficha segue o caminho dos livros da
Metafísica que mais caem em prova: A, Γ, Z, Θ e Λ.
384 a.C.Nasce em Estagira, na Calcídica. O pai, Nicômaco, era médico da corte macedônia.
367 a.C.Entra na Academia de Platão, em Atenas, onde fica cerca de vinte anos.
347 a.C.Morte de Platão. Aristóteles deixa Atenas: Assos, depois Lesbos, onde faz pesquisa biológica.
343 a.C.Torna-se preceptor do jovem Alexandre, na Macedônia.
335 a.C.Volta a Atenas e funda o Liceu. Época provável dos cursos reunidos na Metafísica.
322 a.C.Morre em Cálcis, na Eubeia.
séc. I a.C.Andrônico de Rodes edita a obra e reúne os 14 livros sob o título que nos chegou.
A Metafísica não foi escrita como um livro único. São catorze tratados, de épocas diferentes,
reunidos depois pelos editores. Por isso eles são citados por letras gregas — A, α, B, Γ, Δ, E, Z, H, Θ,
I, K, Λ, M, N — ou pelos números correspondentes, I a XIV. Há repetições, recomeços e problemas deixados
em aberto: é o caderno de um pesquisador, não um manual.
Para a disciplina, os núcleos são cinco: A (I), sobre a sabedoria e as causas;
Γ (IV), sobre o ente enquanto ente e o princípio de não contradição; Z (VII),
sobre a substância; Θ (IX), sobre potência e ato; e Λ (XII), sobre o
primeiro motor.
§ 2 · Livro A
Todos desejam saber
Todos os homens, por natureza, desejam saber. Sinal disso é o prazer que as sensações nos dão:
mesmo fora da utilidade, elas são amadas por si mesmas, e mais que todas a visão.
Aristóteles, Metafísica I (A), 1, 980a21–24
O livro A monta uma escada do conhecimento. Na base está a sensação; dela vem a
memória; de muitas memórias da mesma coisa, a experiência
(empeiría); acima, a arte ou técnica (tékhne); no topo, a
sabedoria. O critério para subir é conhecer a causa: quem tem experiência
sabe que tal remédio curou Cálias; o médico sabe por que ele cura quem tem aquela doença.
A sabedoria é, então, a ciência das primeiras causas e princípios. Não serve a nada além
de si — e é por isso a mais livre das ciências. Começa onde começa toda filosofia: no espanto.
«Foi pelo espanto (thaumázein) que os homens, agora e no princípio, começaram a filosofar» (I, 2, 982b12).
§ 3 · Livro Γ
O princípio mais firme de todos
A ficha anterior mostrou que Γ define a ciência do ente enquanto ente e que «o ente se diz de
muitos modos», todos em relação à substância. Mas Γ também pergunta: se essa ciência estuda o que vale
para tudo o que é, ela deve estudar os princípios que valem para todo raciocínio. O primeiro deles:
É impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo ao mesmo sujeito e
segundo o mesmo aspecto.
Aristóteles, Metafísica IV (Γ), 3, 1005b19–20
É o princípio de não contradição. Não pode ser demonstrado, porque toda
demonstração já o usa — tentar prová-lo seria andar em círculo. Mas pode ser defendido por
refutação (élenkhos): basta que o adversário diga alguma coisa com
sentido. Se ele diz «homem» e quer dizer algo determinado, já excluiu que «homem» signifique também
«não-homem». Quem nega o princípio e continua falando, usa o princípio; quem não fala nada, diz
Aristóteles, é «semelhante a uma planta» (IV, 4, 1006a15).
§ 4 · Livro Z
O que é a substância?
E aquilo que, desde antigamente, agora e sempre, é buscado e sempre causa embaraço — o que é o ente? —
equivale a isto: o que é a substância?
Aristóteles, Metafísica VII (Z), 1, 1028b2–4
Nas Categorias, Aristóteles tinha dividido o que se diz em dez gêneros: substância, quantidade,
qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, ação e paixão. Todos os outros nove dependem da
substância: não há «branco» sem algo que seja branco. E a substância primeira
era o indivíduo concreto — «este homem», «este cavalo».
O livro Z vai mais fundo: dentro do indivíduo, o que faz dele uma substância? Testa quatro
candidatos (VII, 3): o substrato, o universal, o gênero e a
essência. O substrato puro — tirando todas as qualidades — acaba sendo a matéria
indeterminada, que não é nem separável nem um «isto» definido; logo, não pode ser substância em
sentido primeiro. O universal é comum a muitos, e a substância de cada coisa é própria dela (VII, 13).
Sobra a essência — em grego, to tí ên eînai, «o que era ser» —, que
Aristóteles identifica com a forma (eîdos):
Chamo forma a essência de cada coisa e a substância primeira.
Aristóteles, Metafísica VII (Z), 7, 1032b1–2
§ 5 · Livro Θ
Potência e ato
Aqui está a resposta a Parmênides. O eleata dizia que mudar é passar do não-ser ao ser, e que do
não-ser nada vem. Aristóteles concorda que nada vem do não-ser absoluto. Mas a semente não é
um nada de árvore: é árvore em potência (dýnamis). Crescer é passar
a ser árvore em ato (enérgeia, ou entelékheia, «estar no fim»).
A mudança vai do que já é, de certo modo, ao que é plenamente. (A mesma solução aparece na
Física I, 8, onde Aristóteles diz que os primeiros filósofos «se desviaram» por falta dessa distinção.)
Potência não é qualquer possibilidade: a pedra não é estátua em potência do mesmo modo que o bronze é,
e o bronze não é planta em potência. Cada matéria tem potências determinadas.
E o ato é anterior à potência (IX, 8): na definição (só se define «capaz de construir» pelo
construir), na substância (o fim é o que dá sentido ao processo) e, de certo modo, no tempo — antes da
semente houve uma árvore em ato que a produziu. «Um homem gera um homem.»
§ 6 · Livro Λ
O primeiro motor imóvel
Λ (XII) distingue três tipos de substância: as sensíveis que perecem (plantas, animais), as sensíveis
eternas (os astros, em movimento circular perpétuo) e uma substância imóvel. Por que esta
última? Porque o movimento do céu é eterno, e um movimento eterno precisa de uma causa eterna. Se essa
causa também se movesse, precisaria de outra, e assim ao infinito. Logo, há um primeiro
motor imóvel.
Como algo move sem se mover? Do jeito que o objeto de desejo move quem o deseja: «move como o que é
amado» (XII, 7, 1072b3). O primeiro motor não empurra o céu; o céu tende a ele. Ele é ato puro,
sem nenhuma matéria nem potência, e sua atividade é a mais alta que existe — pensar. Mas pensar o quê?
Só a si mesmo, porque pensar qualquer outra coisa seria depender de algo inferior:
Ele pensa a si mesmo, se é o mais excelente, e o seu pensamento é pensamento de pensamento.
Aristóteles, Metafísica XII (Λ), 9, 1074b33–35 (nóesis noéseos)
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão; cada questão mostra
a resposta certa e a explicação.