Segundo período · 10 · Psicologia da Educação · Pavlov, 1903 — Skinner, 1990
Behaviorismo
Um fisiologista russo estuda a saliva de cães e descobre, sem querer, que eles começam a salivar
antes da comida chegar. Dez anos depois, um psicólogo americano declara que a psicologia deve parar de
olhar para dentro da mente e estudar só o que se vê: o comportamento. Durante meio século, essa aposta
vai dizer à escola como se aprende.
1898Thorndike publica os experimentos com gatos em caixas-problema e formula a lei do efeito.
1903–1904Pavlov apresenta os «reflexos condicionados» e recebe o Nobel de Medicina — pelos estudos da digestão.
1913Watson publica «A psicologia como o behaviorista a vê», o manifesto da escola.
1920Watson e Rayner condicionam medo num bebê de onze meses: o caso do «Pequeno Albert».
1938Skinner publica O comportamento dos organismos e apresenta o condicionamento operante.
1954–1968Skinner propõe as máquinas de ensinar e reúne as ideias em Tecnologia do ensino.
1959Chomsky publica uma resenha arrasadora do Comportamento verbal de Skinner. Começa a virada cognitiva.
No começo do século XX, a psicologia de laboratório (Wundt, Titchener) estudava a consciência pela
introspecção: pessoas treinadas descreviam o que sentiam ao ver uma cor ou
ouvir um som. O problema é que dois laboratórios chegavam a resultados diferentes e não havia como
decidir quem tinha razão — ninguém enxerga a consciência do outro.
John B. Watson propõe cortar o nó. Em 1913, afirma que o objeto da psicologia é o
comportamento observável, descrito em termos de estímulo
(o que acontece no ambiente) e resposta (o que o organismo faz). Nada de «mente»,
«consciência» ou «vontade» como explicação: a psicologia deve ser um ramo objetivo e experimental das
ciências naturais, capaz de prever e controlar o comportamento.
Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem formadas, e o meu próprio mundo especificado para
criá-las, e garanto que, tomando qualquer uma ao acaso, farei dela qualquer tipo de especialista que
eu escolher — médico, advogado, artista, comerciante e, sim, até mendigo e ladrão.
Watson, Behaviorismo, 1924
§ 2 · Pavlov
O condicionamento clássico
Ivan Pavlov media a salivação de cães. A comida na boca provoca saliva sem que ninguém precise ensinar:
é um estímulo incondicionado (EI) que produz uma
resposta incondicionada (RI). Uma campainha, sozinha, não provoca nada — é um
estímulo neutro. Mas, se a campainha soa várias vezes logo antes da comida, o cão passa a
salivar só com a campainha. Ela virou um estímulo condicionado (EC), e a saliva
diante dela é uma resposta condicionada (RC).
Três fenômenos completam o quadro. Na extinção, a campainha soa muitas vezes sem
comida e a resposta enfraquece. Na generalização, sons parecidos com a campainha
também provocam saliva. Na discriminação, o cão aprende a responder a um tom e
não a outro, se só um deles vem seguido de comida. Esse é o aprendizado respondente:
uma resposta reflexa passa a ser provocada por um estímulo novo.
§ 3 · Thorndike
A lei do efeito
Edward Thorndike prendia gatos famintos numa caixa-problema: para sair e chegar à comida, era
preciso puxar uma corda ou apertar uma alavanca. Nas primeiras vezes, o gato se debatia ao acaso até acertar.
Nas seguintes, acertava cada vez mais rápido. Não havia «compreensão súbita»: havia
tentativa e erro, com os movimentos inúteis sumindo aos poucos.
Daí a lei do efeito: uma resposta seguida de uma consequência satisfatória tende a
se repetir naquela situação; uma resposta seguida de consequência desagradável tende a se enfraquecer. A
novidade em relação a Pavlov está no foco: o que importa não é o que vem antes da resposta, mas o que
vem depois dela.
§ 4 · Skinner
O condicionamento operante
B. F. Skinner leva a lei do efeito adiante. A maior parte do que fazemos não é reflexo provocado por um
estímulo: é comportamento que opera sobre o ambiente — por isso, operante.
Um rato numa caixa (a «caixa de Skinner») aperta uma barra e recebe comida; a frequência do apertar aumenta.
O comportamento é controlado pelas suas consequências.
Reforço é toda consequência que aumenta a frequência de um comportamento;
punição é toda consequência que a diminui. «Positivo» quer dizer que algo é
acrescentado; «negativo», que algo é retirado. Isso dá quatro casos:
Reforço positivo — acrescenta algo agradável: o aluno participa e recebe um elogio. ·
Reforço negativo — retira algo desagradável: o aluno entrega a tarefa e a professora para
de cobrar. · Punição positiva — acrescenta algo desagradável: uma advertência por escrito. ·
Punição negativa — retira algo agradável: perder parte do intervalo.
§ 5 · Ferramentas
Modelagem, esquemas, extinção
Como ensinar um comportamento que o aprendiz ainda não faz? Pela modelagem:
reforçar aproximações sucessivas. Primeiro se reforça o rato que olha para a barra, depois
o que chega perto, depois o que toca, até que só o apertar seja reforçado. Na escola, é reforçar a
criança que escreve a primeira letra do nome, depois a sílaba, depois o nome inteiro.
Os esquemas de reforço dizem quando o reforço vem. No contínuo,
toda resposta é reforçada: bom para começar a aprender. Nos intermitentes, só algumas —
por número de respostas (razão) ou por tempo (intervalo), de forma fixa ou variável. Um comportamento
mantido por reforço intermitente variável é o mais resistente à extinção,
que é o enfraquecimento do comportamento quando o reforço deixa de vir. É a lógica da máquina caça-níquel.
Skinner chamou a própria posição de behaviorismo radical. Ao contrário do que se
repete, ele não negava que pensamos e sentimos: pensamentos e sentimentos são eventos privados,
comportamentos que só o próprio sujeito observa, e obedecem às mesmas leis dos públicos. O que ele recusava
era usá-los como causa — dizer que alguém estuda «porque tem motivação» é só dar outro nome ao fato de que
estuda. A causa, para Skinner, está na história de reforço.
§ 6 · Na escola
Tecnologia do ensino — e suas críticas
Depois de visitar a aula de matemática da filha, em 1953, Skinner concluiu que a escola desrespeitava tudo o
que se sabia sobre aprendizagem: o professor não consegue reforçar cada acerto de trinta alunos, o retorno
sobre a tarefa chega dias depois, e todos andam no mesmo ritmo. Sua resposta foi a
instrução programada, aplicada nas máquinas de ensinar:
Pequenos passos, do simples ao complexo. · Resposta ativa: o aluno faz algo
em cada passo. · Feedback imediato: sabe na hora se acertou. · Ritmo próprio:
cada um avança quando domina o passo anterior. Daí vêm também os objetivos comportamentais
(«ao final da aula, o aluno será capaz de…») e boa parte do ensino a distância e dos aplicativos com pontos e
fases que usamos hoje.
As críticas vieram de vários lados. Em 1959, Noam Chomsky argumentou que a linguagem não pode ser explicada
só por reforço: as crianças produzem frases que nunca ouviram e aprendem regras gramaticais muito além do que
o ambiente lhes ensina. As teorias que a disciplina estuda em seguida também respondem ao behaviorismo:
para Piaget, o sujeito constrói ativamente o conhecimento; para Vygotsky e
Wallon, a aprendizagem é mediada pela cultura, pela linguagem e pelos outros. E pesa a
pergunta política: quem decide quais comportamentos serão reforçados, e para quê?
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das
questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.