Platão perguntava como seria a cidade perfeita. Aristóteles, que viveu em Atenas como estrangeiro
e nunca pôde votar lá, mandou recolher as constituições de 158 cidades e perguntou outra coisa:
o que as cidades reais são, por que caem, e qual delas, entre as possíveis, é a melhor?
384 a.C.Nasce em Estagira, na Calcídica, filho do médico da corte macedônia.
367 a.C.Entra na Academia de Platão, onde fica vinte anos.
343 a.C.Torna-se preceptor do jovem Alexandre, na Macedônia.
335 a.C.Volta a Atenas e funda o Liceu. A Política nasce dos cursos dados ali.
323 a.C.Morre Alexandre. Acusado de impiedade, Aristóteles deixa Atenas.
322 a.C.Morre em Cálcis, na ilha de Eubeia.
§ 1 · Método
Começar pelas cidades que existem
A Política não é um livro escrito de uma vez: são notas de curso, em oito livros, que
às vezes se repetem e às vezes mudam de plano no meio. Mas o método é reconhecível. Aristóteles
parte das opiniões correntes, das constituições reais e dos fatos — os alunos do Liceu reuniram
as constituições de 158 cidades, das quais só sobreviveu a Constituição de Atenas.
E a política não é um saber separado. A Ética a Nicômaco termina dizendo que, para que
as pessoas se tornem virtuosas, é preciso estudar as leis e as constituições (X.9). Ética e política
são duas partes de uma mesma investigação sobre o bem humano:
a ética trata dele na vida de cada um, a política trata dele na cidade — e o bem da cidade é
«mais belo e mais divino» (EN I.2).
§ 2 · Política, I.1–2
O ser humano é um animal político
A cidade não nasce de um contrato: nasce da natureza. Primeiro vem a casa
(oikos), para as necessidades do dia a dia; várias casas formam a aldeia;
várias aldeias formam a pólis, a primeira comunidade
autossuficiente. E aí vem a frase decisiva: a cidade surge para
viver, mas existe para viver bem (1252b29-30).
É evidente que a cidade faz parte das coisas da natureza, e que o homem é por natureza um animal político.
Aristóteles, Política, I.2, 1253a2-3
Por que «político», e não apenas gregário como as abelhas? Porque só o ser humano tem
logos, a palavra. Os animais têm voz, que indica prazer e dor;
a palavra serve para mostrar o útil e o nocivo, o justo e o injusto (1253a9-18). E é a
partilha dessas noções que faz uma casa e uma cidade.
§ 3 · Política, I.3–13
A casa, e quem fica de fora
A casa tem três relações de comando: senhor e escravo, marido e mulher, pai e filhos. Cada uma é
diferente — e nenhuma delas é política, porque o governo político é entre livres e iguais,
que se revezam no mando. Confundir o governante com o chefe de família é o primeiro erro que
Aristóteles corrige (1252a7-16).
É aqui que estão as páginas mais difíceis do livro. Aristóteles defende a
escravidão natural: haveria seres humanos que, por natureza,
«não são de si mesmos, mas de outro» (1254a14-15), capazes de entender a razão mas não de deliberar.
O escravo é chamado de «propriedade animada» (1253b32). Sobre as mulheres, diz que têm a capacidade
de deliberar, mas «sem autoridade» (1260a13).
O livro I trata também da economia. Aristóteles separa a aquisição natural, que busca o necessário
para a casa e tem limite, da crematística de troca, que busca dinheiro pelo
dinheiro e não tem limite nenhum. A forma mais antinatural é a usura, em que o dinheiro gera dinheiro (1258b2-8).
§ 4 · Política, II
Contra a República
O livro II examina as cidades ideais propostas por outros, e o primeiro alvo é o mestre.
A objeção central é que Platão quer a cidade unida demais. Mas a cidade é, por natureza, uma
pluralidade de pessoas diferentes; levada ao extremo, a unidade a transforma numa casa,
e depois num único indivíduo — isto é, a destrói (1261a16-22).
Contra a comunidade de bens: o que é comum a muitíssimos recebe o menor cuidado, porque cada um
pensa no que é seu (1261b33-35). Contra a comunidade de filhos: se cada criança é filha de mil pais,
o afeto se dilui como um pouco de mel em muita água — uma «amizade aguada» (1262b15-17).
§ 5 · Política, III
Quem é cidadão, e os seis regimes
Cidadão não é quem mora na cidade, nem quem nasceu de pais cidadãos. É quem
participa das funções de deliberar e de julgar (1275a22-23; 1275b18-20).
A definição, admite Aristóteles, serve sobretudo para a democracia. E ele separa duas perguntas:
o bom cidadão é bom em relação ao regime em que vive; o
homem bom é bom sem mais. As duas coisas só coincidem na melhor cidade.
A tabela
Os regimes se classificam por dois critérios: quantos governam e, sobretudo, para quem.
Os retos governam visando o bem comum; os desviados, visando o interesse de quem governa (III.7).
Um: monarquia → desvia em tirania ·
Poucos: aristocracia → desvia em oligarquia ·
Muitos: politeia → desvia em democracia.
Isso não faz dele um inimigo do povo. No mesmo livro aparece o argumento da
sabedoria da multidão: muitos, cada um com uma parte de virtude e de juízo,
podem decidir melhor do que poucos excelentes, assim como um banquete para o qual todos contribuem
é melhor que o oferecido por um só (1281a42-b10).
§ 6 · Política, IV–V
O melhor possível: a politeia e a classe média
Nos livros IV a VI, Aristóteles desce do ideal para o viável. Qual é o melhor regime para a maioria
das cidades reais? A politeia, entendida como uma mistura de oligarquia
e democracia: por exemplo, magistrados eleitos (traço oligárquico) sem exigência de fortuna (traço democrático).
E o que sustenta essa mistura é a classe média (IV.11). Os muito ricos
não sabem obedecer, os muito pobres não sabem mandar; uns desprezam, outros invejam.
Onde a classe média é numerosa, ela equilibra os extremos e a cidade fica estável (1295b).
O livro V estuda as revoluções (stáseis), e a causa geral é sempre
uma disputa sobre igualdade: os democratas acham que, iguais em liberdade, devem ser iguais em tudo;
os oligarcas, que, desiguais em riqueza, devem ser desiguais em tudo. Para conservar um regime, o remédio
mais importante é a educação de acordo com ele.
§ 7 · Política, VII–VIII e recepção
A melhor cidade, e o que ficou
Os dois últimos livros desenham a cidade «segundo os nossos desejos»: território e população
na medida certa, cidadãos com tempo livre (scholé) para a política e para a
filosofia, e uma educação pública, igual para todos os cidadãos, porque a
cidade inteira tem um só fim (VIII.1). A educação não serve só para o trabalho: serve para saber usar bem o ócio.
A recepção é enorme. Tomás de Aquino traduz o «animal político» como «animal social e político» e o incorpora
à teologia cristã. Hannah Arendt, na bibliografia básica, retoma a distinção entre a casa (o lugar da
necessidade) e a pólis (o lugar da liberdade e da ação). E Martha Nussbaum, também na bibliografia básica,
constrói a sua abordagem das capacidades a partir de Aristóteles: uma sociedade
justa é a que garante a cada pessoa as condições de florescer.
Exercício
Questionário
Doze questões sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma e clique em
Corrigir no final. A pontuação aparece no topo e cada questão mostra a explicação.