Segundo período · 07 · Helenismo · Epicuro, 341 — 270 a.C.
Epicurismo
Atenas já não decide o próprio destino, e Epicuro abre uma escola num jardim, longe da assembleia.
O que ele promete não é poder nem glória: é uma vida sem medo — dos deuses, da morte, da dor e
dos desejos que nunca se satisfazem.
341 a.C.Epicuro nasce em Samos, filho de colonos atenienses.
311 a.C.Começa a ensinar em Mitilene e depois em Lâmpsaco, onde reúne os primeiros discípulos.
306 a.C.Compra uma casa com jardim em Atenas e funda o Kêpos, o Jardim. Aceita mulheres e escravos.
270 a.C.Morre em Atenas, depois de dias de dor, escrevendo que aquele foi «um dia feliz».
séc. I a.C.Lucrécio expõe a doutrina em latim, no poema Da natureza das coisas.
séc. II d.C.Diógenes de Enoanda manda gravar a doutrina num muro da cidade, para quem passar.
A Academia e o Liceu ficavam em ginásios públicos e formavam homens para a vida da cidade.
O Jardim de Epicuro é uma casa: lá se vive junto, se come junto e se estuda junto. Entram mulheres,
como Leôncio e Temista, e escravos, como Mys — coisa rara em qualquer escola grega. O que une
o grupo é a amizade (philía), que Epicuro coloca entre os maiores bens da vida.
De tudo o que a sabedoria proporciona para a felicidade da vida inteira, o maior bem é, de longe,
a posse da amizade.
Epicuro, Máximas principais, XXVII
O lema da escola é lathe biósas, «vive escondido»: fique longe da política,
da disputa por cargos e da fama, que só trazem perturbação. Não é desprezo pelos outros; é a convicção de
que a felicidade se decide em pequena escala, entre amigos.
A filosofia tem três partes — canônica (o critério da verdade), física e
ética — mas as duas primeiras existem para servir à terceira. Estudar a natureza só vale
a pena porque tira o medo. «Vazio é o discurso do filósofo que não cura nenhum sofrimento humano.»
§ 2 · Canônica
As sensações não mentem
Como saber o que é verdadeiro? Epicuro aponta três critérios: as
sensações (aisthéseis), as prenoções (prolépseis) —
noções gerais formadas pela repetição das sensações, como a ideia de «homem» — e as afecções
(páthe), o prazer e a dor, que dizem o que buscar e o que evitar.
A tese ousada: toda sensação é verdadeira. A torre quadrada que, de longe, parece redonda
não engana: o olho registra corretamente as imagens que de fato chegam até ele, desgastadas pelo caminho.
O erro está na opinião que acrescentamos — «a torre é redonda» — sem esperar a
confirmação de perto.
§ 3 · Física
Átomos, vazio e um pequeno desvio
A física é a de Demócrito: só existem átomos e vazio; nada vem do nada e nada volta ao nada;
há infinitos mundos. Epicuro acrescenta que os átomos têm peso e por isso caem, todos na
mesma velocidade, pelo vazio infinito.
Mas se todos caem em linhas paralelas, nunca se encontrariam e nada se formaria. Daí o
desvio — parénklisis em grego, clinamen em Lucrécio: em momento
e lugar indeterminados, um átomo se afasta minimamente da reta. Esse desvio explica os choques que formam
as coisas e quebra a corrente da necessidade. Sem ele, diz Lucrécio, tudo seria destino, e não haveria
a vontade livre que vemos nos seres vivos.
Os deuses existem: temos deles uma prenoção clara. Mas são seres perfeitamente felizes e
imortais, que vivem nos intervalos entre os mundos (metakósmia) e não se ocupam de nada —
ocupar-se com o mundo seria perturbação, e perturbação não combina com felicidade perfeita. Não punem
nem recompensam. Não há por que temê-los.
§ 4 · Tetrafármaco
O quádruplo remédio
Filodemo, epicurista do séc. I a.C., resume a ética em quatro frases, o
tetraphármakos:
Deus não é de temer; a morte não é de recear; o bem é fácil de obter; o mal é fácil de suportar.
Filodemo, Contra os sofistas, IV (resumindo as Máximas I–IV)
O segundo remédio é o mais famoso. A morte é a dissolução dos átomos da alma; com ela acaba toda sensação.
E bem e mal estão na sensação. Logo:
A morte não é nada para nós: quando nós somos, a morte não é; e quando a morte é, nós já não somos.
Epicuro, Carta a Meneceu, 124–125
Lucrécio acrescenta o argumento da simetria: o tempo infinito antes de nascermos não nos
incomodou em nada. O tempo depois da morte é um espelho dele. Por que temer um e não o outro?
§ 5 · Ética
Que prazer?
Dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida feliz.
Epicuro, Carta a Meneceu, 128
Mas o prazer de Epicuro não é a festa. Há o prazer em movimento (cinético) — comer quando
se tem fome — e o prazer estável (catastemático) — o estado de não ter mais fome. O segundo
é o mais alto: aponía, ausência de dor no corpo, e
ataraxia, ausência de perturbação na alma. Atingido esse ponto, o prazer não
aumenta: só varia.
Para chegar lá, Epicuro classifica os desejos (Carta a Meneceu 127):
Naturais e necessários: comer, beber, abrigar-se do frio — fáceis de satisfazer. ·
Naturais e não necessários: comida refinada, prazeres variados — podem ser aproveitados,
mas não são indispensáveis. · Nem naturais nem necessários (vãos): riqueza sem fim, glória,
poder — não têm limite, e por isso nunca se satisfazem.
E é preciso calcular: alguns prazeres trazem dores maiores depois, e algumas dores trazem prazeres maiores.
A virtude que faz esse cálculo é a prudência (phrónesis), «mais preciosa
até que a filosofia».
Quando dizemos que o prazer é o fim, não nos referimos aos prazeres dos devassos, mas a não sofrer dor
no corpo nem perturbação na alma.
Epicuro, Carta a Meneceu, 131
§ 6 · Justiça
Um pacto para não se ferir
Não existe uma justiça «em si», escrita na natureza ou num mundo de Ideias. A justiça é um
pacto de utilidade, feito entre pessoas, para não causar nem sofrer dano
(Máximas XXXI–XXXIII). Por isso ela muda de lugar para lugar: uma lei é justa enquanto é útil
à convivência.
E por que não cometer injustiça quando ninguém vê? Porque quem a comete vive com medo de ser descoberto —
e esse medo destrói a ataraxia. A injustiça não é um mal em si: é um mau negócio.
Exercício
Questionário
10 questões de múltipla escolha sobre o que está acima. Marque uma alternativa em cada uma
e clique em Corrigir no final. O resultado aparece logo abaixo do botão, com a lista das
questões que você acertou e errou; cada questão mostra a resposta certa e a explicação.